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sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Depressão é o fim do mundo


A Ofélia de John Everett Milais
O último filme do Lars von Trier, (Melancholia, Dinamarca /Suécia / França / Alemanha / Itália, 2011), já começa belo pelo título. Melancolia, resumindo laconicamente todos os aspectos do termo, é um estado soturno da mente.

O Prólogo (é assim mesmo que devemos chamar, pois há quem diga que não se trata exatamente de um prólogo, mas sim de um resumo, enquanto prólogo é algo como uma introdução. Mas prólogo no teatro antigo ou contemporâneo é mesmo a parte inicial da obra, onde se faz a exposição do tema, onde são oferecidos os elementos precedentes e elucidativos do que vai ser apresentado), como ocorreu com O Anti-Cristo, por si só vale o preço do ingresso; é uma sequência de imagens de beleza ímpar, poucas vezes vista no cinema e, ainda por cima, levadas pelo tema Tristão e Isolda, de Wagner. Esse prólogo resume o significado da melancolia de muitos modos; há a beleza de uma natureza conformada com seu fim; há uma mãe e uma noiva tendo os passos tolhidos por uma ambiência vegetal que lhes diz que é inevitável uma fuga; fugir para onde, se até mesmo o devir não promete refrigérios? A mesma noiva agora jaz conformada num leito líquido e noturno, tal qual Ofélia outrora jazeu conformada na tela de John Everett Millais e em todas as representações de Hamlet (Ofélia também se desesperou encontrando a serenidade somente na alienação da mente e na natureza; já Justine encontra a serenidade na plenitude de sua racionalidade, libertando-se das fendas familiares que a espremiam e ficam em mistério para nós); há a poderosa imagem de personagens estáticos ao luar triste, se apresentando defronte a um castelo, para no fim da película se despedirem de maneira mais poderosa ainda.

Então começa de fato o filme. Banalidades, risos, emoções disfarçadas e uma impressão de algo estranho pairando no ar. A felicidade de Justine é aparente. Acabou-se a festa, chega de brincadeira. O acúmulo constante da melancolia transborda em depressão, e toda esperança de alguma felicidade é baldada pela certeza absoluta de algo triste, inexoravelmente triste, onde as vozes não fazem eco, não se escutam. A melancolia não é só de Justine, é também da própria natureza e de todo o planeta; e parece que só Justine entra em simbiose com os elementos, talvez por estar calejada, experimentada demais nesse sentimento. O fato de o planeta que vai destruir a Terra chamar-se Melancolia e ter um tom azul (blue, triste em inglês), ter ficado todo esse tempo em segredo “escondido atrás do Sol”, o brilhante astro que traz alegria, é uma ideia sublime, poética, rica em significados, do diretor, que também é adepto desse estado da alma. Como ele falou em entrevista: “A Depressão é o fim do mundo”. Para alguns, esse filme teria levado a Palma de Ouro em Cannes, caso o diretor não tivesse virado persona non grata por conta da frase sobre Hitler. Bem, acho que A Árvore da Vida (que de algum modo tem ligação com este filme aqui, talvez por lá vermos o começo e aqui o fim ou por outros motivos que me escapam), tem méritos suficientes para ter ganho o prêmio máximo; também não acho correto prejudicar uma obra de grande qualidade por conta do caráter de seu autor. Há casos na Arte e na Literatura de homens um tanto ignóbeis que produziram obras de grandeza e nobreza incomparáveis, como um tipo de Dorian Gray às avessas. Ao menos Kirsten Dunst ganhou a palma de melhor atriz. Essas atrizes (como aconteceu com Nicole Kidman), acostumadas somente com o posto de estrelas de Hollywood, conhecem, algumas vezes, o de atriz.

A morte/fim é anunciada, como nas tragédias. Desespero e conformismo se revezam. Personagens trocam suas atitudes, o forte de ontem agora é frágil cristal; alguns apenas disfarçam a covardia, sumindo-se na surdina inútil, enquanto outro é protegido pela pueril ingenuidade. E, como disse Augusto dos Anjos, “O fim das coisas mostra-se medonho”. Nunca um fim do mundo foi tão fim do mundo no cinema. O diretor Lars von Trier conseguiu mais impacto e comoção com o extermínio de três pessoas do que Hollywood jamais conseguiu matando milhões ao mesmo tempo em seus filmes sobre fim do mundo. Acaba-se tudo e nós, espectadores, estamos lá, implacavelmente deixados sozinhos e em grande desconforto, apenas com uma certeza, a de que o fim de tudo é surdo, inapelável e, se acontecer, tem chances de ser daquele jeito. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Quando juntas cantavam as estrelas da manhã e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo? (Jó cap. 38, vers. 7-4.)


Na tela de 1812, Tempestade de Neve: Aníbal e o seu Exército Atravessando os Alpes, o pintor William Turner, mostra o quão pequeno é homem diante da natureza. Mal vemos o séquito cartaginês que se apresenta em esboço; sombras de homens e animais jazem e até um animal de grande porte, como o elefante, aparece pequenino ao fundo, sendo percebido apenas pela tromba erguida. O que preenche realmente a tela com fúria portentosa é a grande borrasca, a avalancha que toma penedos e encostas alcantiladas; os nimbos densos apagam os topos dessas elevações e o próprio sol fica tímido, mostrando-se sombrio diante dos remoinhos de neve.



A família como uma árvore

Em A Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) o diretor, Terrence Malick, também mostra como o ser humano, apesar de peça importante no palco da vida, é pequeno diante da natureza e esta, por sua vez, é pequena diante de todo um universo criado por Deus. É talvez o filme mais religioso que já vi, apesar de não ser bíblico, e funciona como uma emocionante aula sobre a grandeza divina, um obra que reverencia o Criador e tanto as imagens (entre elas umas chama que me lembra a sarça de fogo ardente) quanto a trilha sonora contribuem para isso. Abrir o filme citando o livro de Jó já é uma forma poderosa de introduzir a obra. Assim como nas telas de Turner, as películas de Malick deleitam pela qualidade e grandiosidade das imagens, Turner impressionando com sua perícia no uso da cor e da luz, Malick com a impecável fotografia (elemento também de cor e luz). Claro que não comparo as qualidades artísticas dos dois e sim a intenção de ambos que é um forte e imediato efeito geral de uma cena. Também não compararei Terrence Malick com Stanley Kubrick, isso é besteira; compararei, todavia, seus filmes A Árvore da Vida e 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Em ambos os filmes o uso da imagem é grandioso (Douglas Trumbull, o supervisor de efeitos visuais do filme, foi o mesmo de 2001), imagens tão eloqüentes que passam tudo sem precisar de diálogos, isso se vê tanto na abertura de 2001 quanto na sequência que mostra a formação do mundo e da vida na Árvore da Vida (de tão bela lembra um dos prólogos do Lars von Trier); ambos os filmes tratam da evolução da vida e do sentido desta; ambos mostram-se tão claros quanto enigmáticos nas sequências finais (ambos mostram o personagem principal deparando-se com ele mesmo e suas fases, dando significado a um todo que aparentemente não tinha sentido quando isolado em partes).

Além da esplêndida sequência da criação, acompanhamos uma partícula da vida numa família americana de classe média, onde uma mãe amorosa e um pai consciencioso cuidam de sua prole com amor e com um instinto de preservação da espécie admiráveis; aqui o diretor reforça constantemente a importância da família (há, por exemplo, constante ênfase na imagem da aliança na mão do pai de família), na figura protetora e propositalmente severa do pai, no amor além do humano da mãe, na solidariedade dos irmãos. Pequenas criaturas que são, se desnorteiam com fatos simples (como a morte) para o ser criador. Malick, formado em Filosofia em Harvard, põe no personagem do jovem Jack, o primogênito, (vivido com brilho pelo jovem Hunter McCracken), primogênito dos O’Brien, uma fusão de emoções, concentrando nele temas como ciúme, complexo de Édipo e Natureza versus Graça: “As freiras ensinaram-nos que há dois caminhos na vida. O caminho da natureza e o caminho da graça. Temos de escolher aquele que seguiremos. A graça não procura agradar a si própria. Aceita ser desprezada, esquecida, malquerida. Aceita insultos e machucados. A natureza procura apenas agradar a si própria. E que os outros lhe agradem também. Gosta de comandá-los. De impor a sua vontade. Procura razões para estar infeliz, quando o mundo inteiro brilha ao seu redor e o amor sorri através de todas as coisas. Elas ensinaram-nos que ninguém que escolha o caminho da graça terá um final infeliz.” É uma obra altamente sugestiva e sensorial, o que causa estranheza e desconforto no público não acostumado com obras mais complexas; lembro que na sessão em que o vi, todos chiaram e torceram muito para o filme acabar logo; para azar deles, e sorte minha, o filme é muito longo; note-se que minha sessão foi num multiplex, em pleno domingo, com um público esperando ver um filme quiçá de guerra (uma imagem do trailer evoca isso) com Brad Pitt. Em Cannes o júri decidiu lhe dar Palma de Ouro mesmo sentindo um pouco da estranheza que o grande público sentiu; talvez o motivo do prêmio máximo tenha sido não só o deslumbre estético mas, também, porque depois de tantos filmes pesados na seleção deste ano, como Snowtown, eles tenham se aliviado e emocionado com um filme que mostra que a vida segue religiosamente seu curso, soberana e indiferente às dores humanas.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Cannes 2012


Poster do Festival de Cannes 2012
Homenagem justa e merecida
a queridíssima Marilyn

sábado, 25 de fevereiro de 2012

L’Apollonide

A inspeção médica

A inspeção médica segundo Toulouse-Lautrec 

Toulouse-Lautrec 

Toulouse-Lautrec 

Toulouse-Lautrec 


Judith I, de Gustav Klimt









L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância (L’Apollonide – Souvenirs de la Maison Close; França, 2011).

O título original do filme diz “Memórias do Bordel”; se nos apegarmos à palavra ‘souvenirs’ isoladamente, chegaremos a um sentido mais fiel do significado da vida das mulheres retratadas no filme. O Romantismo do título traduzido e do clima de todo o filme, ajudado pela fotografia, são bem-vindos, ainda que não combine muito com aquela realidade e com nenhuma outra realidade quando o assunto é prostituição; Realismo, movimento que já imperava àquela altura (fim do século XIX), combina mais com a situação. Me desculpem essa minha mania de semântica, mas amo a riqueza das palavras e elas não nomeiam as coisas em vão ou sem cuidado; atentem para a palavra ‘tolerância’ no sentido usado pelo título brasileiro e vejam quão longe podemos ir.

O filme, que disputou a Palma de Ouro em Cannes, é um painel de tipos femininos, alguns idealizados, outros inspirados abertamente na obra de Toulouse-Lautrec e na Art Nouveau. Pessoalmente encontrei mais semelhança nas telas de Gustav Klimt, onde as mulheres são um tipo sensual de anjo ou pitonisa. O próprio nome de algumas lhes diz suas características; há, por exemplo, a Boneca, Caca e a Mulher que Ri. A boneca tem esse nome por imitar uma linda boneca a qual menininha nenhuma jamais brincará com ela, em vez disso, brincarão homens lascivos e aborrecidos, que não tem mais o que fazer ou inventar para passar seu tempo; em um momento, enquanto é possuída, a jovem, tão acostumada com a situação, mostra cansaço e se entrega de vez ao personagem, ficando por um tempo sem vida, alheia a tudo até que um escape lhe aparece, um inseto que passeia pelo espelho da cama, ela fixa nele o olhar e parece mergulhar no mundo da pequena criatura. A Mulher que Ri tinha outro nome, Madeleine (uma Madalena), até o momento de viver sua tragédia particular, ser desfigurada como um coringa, não por um amante bruto e estranho, mas por um que era belo, meigo e tinha sua confiança, o que tornou tudo mais doloroso. A personagem da Mulher que Ri é o mais explorado e o mais trágico, seja pela profunda tristeza, pela violência e pela perversa ironia de rir de tudo quando por dentro é choro; A Mulher que Ri abre e termina o filme como uma síntese do que uma mulher da vida se torna, um ser sonhador, mas sem esperança, uma poesia, mas grotesca, e um ser humano, porém muito mais objeto; talvez algum tipo de ornada ânfora, onde homens despejam suas impurezas até um ponto em que o vaso transborda por todos os lados. Alguns momentos do filme são fracos e um pouco arrastados, repetindo suas voltas, já sem ter mais o que dizer, e a trilha sonora usada sem muita habilidade; mas palmas ao diretor por ter mantido nas personagens duas coisas importantes, primeiro, o sonhar com uma situação melhor, mesmo que esse sonho seja exatamente o que a palavra diz, sonho; segundo, o espírito conformado que elas tem, elas são putas e sabem o que isso significa. Mas ser puta não significa que sejam menos humanas que outras mulheres, então ficam profundamente abaladas quando leem um artigo ‘científico’ que não apenas compara seus cérebros e tamanho da cabeça com os de bandidos, mas que as rebaixa a criaturas desprovidas de intelecto, idiotas até. Outra situação bem trabalhada é a visita do médico (conforme tela de Lautrec); elas não apenas temem o diagnóstico, visto que vivem à mercê de todo tipo de doenças ou de gravidez, mas elas também mostram grande desconforto em ter seus sexos explorados por um homem que não seja um cliente, mostrando que elas tem sim pudor; escancaram-se para os clientes, mas eles são parte do ‘comércio’.

Em um momento, elas saem do bordel, vão banhar-se em um rio e agora são apenas crianças felizes, ninfas travessas, prisioneiras que tiveram direito ao banho de sol. No fim do filme, atrás da Madame, uma sazonada rosa perde sua pétala, numa metáfora perfeita do chegar da decadência. Ainda no fim, a cena muda e vemos o bordel olvidado já nos dias atuais, como se aquelas vivencias todas fossem apenas lendas passadas. Se terminasse aí já estaria de bom tamanho, mas então surgem as mesmas atrizes vestidas como as prostituas modernas, em seu ponto na estrada, acenando para um carro, dando continuidade ao métier; sentindo por dentro aquela dor de existir, lembrança atávica da mais antiga (dizem) das profissões.


O diretor Bertrand Bonello é um nome que promete, pois tem já no currículo os interessantíssimos O Pornógrafo e Tirésias. Ele usa elementos literários em seus filmes, vide o mito do adivinho mor, Tirésias, e nesse L’Apollonide se inspira em Vitor Hugo para compor a personagem mais interessante, A Mulher que Ri. Vitor Hugo tem uma novela de 1869, chamada O Homem que Ri (já adaptada para o cinema em 1928); fala de um herdeiro de ducado que, sequestrado a mando de um rei, tem depois o rosto desfigurado num terrível sorriso; acaba como famosa atração de circo (a mulher do filme também se prestou a isso, só que em outro ambiente); uma frase da novela que cabe no filme é "Já não tenho inimigos quando eles são infelizes”. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Verônicas

                    





A polonesa Weronika e a francesa Véronique nasceram no mesmo ano e são a mesma pessoa com poucas diferenças, talvez nenhuma, de acordo com o ponto de vista de cada um, já que essa é uma obra bastante subjetiva, como um quadro na parede, pedindo o parecer particular de quem o observa. Um elo as liga, a música. Um sentimento as intriga, a intuição de algo que falta, de algo que se escapa, deixando ambas sozinhas no mundo; esse algo é justamente a existência de outro (entra aqui o conceito do “duplo”, idéia que não sigo, preferindo acreditar na alma una das Verônicas) alguém não apenas igual a si mesmo, mas outro alguém que é exatamente a própria pessoa (em um lance rápido, no começo do filme, uma das Verônicas vê a outra e tem apenas uma sensação estranha; isso é muito compreensivo e dá o que pensar: se víssemos a nós mesmos em um ponto de ônibus ou dentro de um metrô, será que nos reconheceríamos de imediato? Por mais que conheçamos nossa imagem do espelho, acredito que levaria algum tempo para a ficha cair, tão surreal seria a situação). Parece confuso e não deixa de ser para as Verônicas, mas, para o espectador, tudo é tão simples, tão fluído, tão comum, tal o modo que o grande diretor Krzysztof Kieslowski guia a história do filme A Dupla Vida de Véronique (La Doublé Vie de Véronique, França/Polônia/Noruega, 1991), onde a poesia e a delicadeza tomam lugar numa narrativa que poderia ser toda angústia, toda mistério. Nada é dito, mas temos certeza de que gêmeas não são. E não temos necessidade que o fenômeno se explique; a única coisa que queremos é que Verônica não sofra, pois não existe ser mais doce e meigo, mais lindo e poético que ela; belíssimo trabalho de Irene Jacob, premiada em Cannes pela atuação. O final do filme tem um tom mais didático, mas mesmo esse didatismo é mostrado através da fantasia, com a entrada em cena do escritor de livros infantis, que inventa para suas belas marionetes a história de duas mulheres que estranhamente são uma só.
A música, tirada de Dante, é um elemento importantíssimo no filme, ligando as duas Verônicas e nos dizendo muito sobre elas. Uma música que está onipresente, cantada, tocada na flauta ou apenas silentemente sentida. Com sua costumeira fotografia, Krzysztof Kieslowski nos conta lindamente a história dessa cigarra, criatura venturosa de ignorar a própria desventura. Belo filme.

sábado, 24 de abril de 2010

Projeto Grindhouse + Falsos trailers + À Prova de Morte + Planeta Terror


(Grindhouse, 2007) pode ser analisado como um filme-projeto, mesmo suas partes sendo disponibilizadas para apreciação individual, uma vez que o Grindhouse original funciona diferente como filme, tanto pela idéia da dupla sessão e trailers fakes (idéia já usada em outros filmes), falsas propagandas e a deliciosa chamada “Prevues of Coming Attractions” quanto pelos próprios filmes À Prova de Morte e Planeta Terror, que no projeto tinham duração e edição diferentes, exatamente para que funcionassem juntos, um sendo gancho do outro; alguns personagens, como a anestesista, transitam nos dois filmes, sendo que À Prova de Morte vem primeiro. A idéia do projeto é maravilhosa e vem mesmo de gente que ama pra valer o cinema, não apenas aquele tipo de amor de cinéfilo enjoado que só fala em Fellini, mas aquele que gosta de tudo, contanto que esse tudo seja muito legal e criativo. Grindhouses eram salas de cinema dos anos 60 e 70 (em alguns filmes e em algumas matérias sobre cinema já vimos sobre elas) onde eram exibidos filmes de baixo orçamento, filmes chamados “B” ou “Z”; nesses filmes (que não podiam ser exibidos nos cinemas normais) imperavam as cenas de sexo e violência, aquele tipo de filme apelativo que hoje vemos com tanta satisfação em sessões como o Cine Trash, apresentado por Zé do Caixão. Nas salas grindhouse, o público pagava apenas uma entrada e podia ver até três filmes (o normal era a exibição de apenas dois). Isso lembra um pouco a emergência dos multiplex nos EUA, quando o pessoal saía de sua sessão para outras, enlouquecendo os lanterninhas. E essa idéia de pagar uma entrada e ver dois espetáculos não é novidade das grinhouses; já no século XIX, em Paris e na Inglaterra, por exemplo, havia essa prática (com algumas diferenças) nos teatros e nas óperas cômicas. Esse tipo de filme também dominou os drive-ins. As referências aos filmes da época, no projeto Grindhouse, são diversas, como as maravilhosamente propositais falhas técnicas, como a sofrível fotografia, riscos na tela, cortes bruscos, manchas, chuviscos, estalos, tremedeiras, falhas sonoras e até uma imagem como se o celulóide estivesse derretendo e uma mensagem aparecendo para dizer que o cinema não tem o rolo da parte faltante. Grindhouse junta uma turma de amigos da pesada, cada um com um bom currículo no gênero, Robert Rodriguez (que fez o ótimo Um Drink no Inferno), Eli Roth (que fez Cabana do Inferno e o ótimo O Albergue), Rob Zombie (A Casa dos 1000 Corpos e Halloween, o Início), Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto), além do Tarantino, roteirista em filmes como (Eles Matam e Nós Limpamos) e que foi um frequentador de grindhouses. O destino das grindhouses foi virar salas de filmes pornôs e exploitation nos anos 80. Vimos, muitas vezes, fato semelhante ocorrer no Brasil, onde salas clássicas viraram cinemas pornôs e estão aí até hoje. Salas que guardam seus pomposos nomes, como Art Palácio ou Cine Glória, e era exatamente assim a origem das grindhouses, oriundas dos Movie Palaces, criados durante a época de ouro do cinema americano nos 30 e 40.

Os falsos trailers:



Thanksgiving, de Eli Roth, é tipo um Sexta-feira 13 perverso e mostra um assassino, dos mais sádicos, atacando no Dia de Ação de Graças.

Eli Roth



Machete, de Robert Rodriguez, estrelado pelo expressivo Danny Trejo (presença constante nos filmes de Rodriguez e Tarantino), mostra um homem e sua devastadora vingança, seu nome é MACHETE, o vingador mexicano. O trailer virará um longa posteriormente.



Don’t, de Edgar Wright, junta vários elementos do terror com uma narração de arrasar, sendo dos falsos trailers o que mais tive vontade de ver como longa.

Edgar Wright



Werewolf Women of the SS, de Rob Zombie, com Nicolas Cage (como Fu Manchu), Sheri Moon Zombie (esposa do diretor), Bill Moseley e Udo Kier. É a história das experiências do Dr. Heinrich à serviço de Hitler, para criar um poderoso exército de “lobisomas”. Dizem que acharam documentos reais com essas loucuras, guardados em um esconderijo do ditador.

Rob Zombie




Agora veremos as duas atrações principais.



Seus diretores: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez





À Prova de morte, filme isolado do projeto Grinhouse, traz as cenas ditas “desaparecidas” na versão concorrente à Palma de Ouro em Cannes. São mais meia hora de filme, com uma sequência inédita em preto-e-branco. Conta a história de Stuntman Mike, um dublê sádico e misógino, que utiliza seu carro à prova de morte para matar mulheres brutalmente. Kurt Russell faz o personagem com perfeição, um homem violento dentro do seu carro, covarde e patético fora dele. Há bons diálogos, trilha sonora incrível e um excitante elenco feminino, com Tracie Thoms, Sydney Tamiia Poitier, Rosario Dawson e Mary Elizabeth Winstead (como Lee, uma mocinha tão linda quanto ingênua, deixada na boca do lobo pelas amigas rsrsrs); destaque para a linda e sensual atriz, Vanessa Ferlito, fazendo uma dança do colo ao som de Down in Mexico, cantada por The Coasters. Há, também, o Eli Roth no elenco, ou seja, é uma festa entre amigos. Na parte final do filme há duas sequências geniais, daquelas que só Tarantino realiza, um acidente magnificamente filmado e mostrado sob vários ângulos (até aqui a podolatria do Tarantino se faz presente) e a fantástica perseguição de carros. Quanto à perseguição, a sequência envolve dois “muscle cars” (carros com motores V8 super potentes), uma Chevy Nova preta com um pato endiabrado no capô e o outro, um desejado Dodge Challenger branco. Não poderia deixar de falar na personagem Zoë que na verdade é a atriz/dublê neozelandesa Zoë Bell fazendo ela mesma, motivo da excelência das cenas em que a personagem fica atada em alta velocidade no capô do carro e o público fica assombrado; Zoë já trabalhou com Tarantino em Kill Bill, sendo dublê de Uma Thurman. O filme termina ao som de Chick Habit, com April March. Perfeito.



Planeta Terror, filme isolado do projeto Grinhouse, tem uma duração maior com a adição de material inédito. No interior do Texas, a população é infectada por um gás tóxico (usado pelo exército – participação de Bruce Willis – dos EUA no Oriente Médio, lamentável). Os infectados tem os corpos cobertos por fístulas purulentas e esses mesmos corpos ficam como que podres, ao ponto de despedaçarem sem esforço (houve quem falasse que os efeitos deviam ter sido mais fracos, para combinar com o tipo de homenagem que o filme faz); não são zumbis ou mortos-vivos, mas, pra não fugir à regra passam a se alimentar de carne humana. Há uma personagem extremamente dramática, é a triste go-go-girl, Cherry Darling, que tendo parte da perna arrancada por um faminto infectado, tem, com a ajuda do ex-namorado, El Wray, uma metralhadora à guisa de prótese; essa loucura soa muito convincente (mérito de diretor e atriz), e quem faz o El Wray é o ator Freddy Rodrigues da querida série, À Sete Palmos. Daí em adiante o filme segue com muita ação e cenas inusitadas como a de El Wray fugindo em uma motinha de criança e uma galeria também inusitada de personagens: tem a ótima Dra. Dakota Block, anestesista que guarda na cinta-liga suas agulhas/armas; JT que em meio ao desespero geral só pensa em aperfeiçoar seu molho de churrasco, o melhor do Texas; a cantora Fergie sendo estraçalhada; o policial tarado, feito por Tarantino, que não pode fazer mal à sua vítima, pois seu pênis se decompõe; babás gêmeas; o terrível médico feito pelo ótimo Josh Brolin; o terrorista (o Said de Lost) colecionador de testículos; um pastor que vira matador; necrófilos etc. O diretor Robert Rodriguez (que também foi roteirista, compositor, editor, produtor e fotógrafo do filme) faz com sua obra uma homenagem ao George A. Romero e a outros nomes do gênero, e até à sua parceria com Tarantino, trazendo o personagem do xerife, famoso nos filmes Um Drink no Inferno e Kill Bill, Volume 1. Diversão garantida.