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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sin City


Umas das mais perfeitas adaptações dos quadrinhos (junto com 300), Sin City - Cidade do Pecado (Sin City,2005) é um deslumbrante espetáculo visual. Cada cena e cada fala são cópias praticamente exatas do HQ de Frank Miller, que dirige o filme junto com Robert Rodrigues (Quentin Tarantino dirigiu apenas uma cena). O filme é todo em um estupendo preto-e-branco, só havendo a presença da cor em momentos muito relevantes, para realçar emoções. Com grande duração e formidável elenco, o filme cobre três volumes da série, mesclando suas histórias. O excelente Mickey Rourke faz meu personagem preferido no filme, o grandalhão Marv; os esparadrapos em seu corpo dão um efeito sensacional. Outro destaque é a cafetina Gail, feita pela Rosario Dawson. Como o próprio título já informa, Sin City é mesmo uma cidade do pecado, uma cidade toda submundo, onde o clima noir, com seu magnífico jogo de luzes e sombras, esconde e revela todo tipo de marginal com ou sem uma causa.

Like a Virgen


Vi, recentemente, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), pela primeira vez, e é muito interessante ver o filme que lançou Tarantino (esse é seu segundo filme, o primeiro, super tosco, está disponível na internet, chama-se My Best Friend Birthday, de 1987, com 36min.) depois de ter visto obras mais sofisticadas dele. O filme é tipo um policial barato, lembrando aquelas séries de TV da década de 80, só que muito bom. O diálogo (politicamente incorreto ao se referir aos negros, falo politicamente incorreto porque não consegui identificar racismo ali e toda a obra de Tarantino o mostra dando destaque importante aos negros e sua cultura) é delicioso e, também, o ponto alto do filme. O melhor desse dialogo está logo na abertura, na sequência da lanchonete; já é muito conhecida a discussão em torno dos significados das musicas de Madonna. Os personagens do diretor são muito verossímeis porque discutem questões humanas; por mais prosaicas que sejam, são humanas; eles discutem assuntos que nós mesmos discutimos, aquelas “besteiras” que surgem em cada roda amigos; os personagens aqui não seguem apenas o texto linear para dar um sentido à ação praticada; há um belo roteiro e também há falas soltas que não tem haver com a história, mas tem muito haver com a vivência dos personagens. Ainda por cima, esse diálogo é dito por um time maravilhoso de atores que parecem ter sido escolhidos a dedo. Saber que o diretor não fez faculdade de cinema, mas que era balconista de locadora é maravilhoso; quantos de nós não temos amigos que trabalham em locadora e manjam muito de cinema e não são cineastas apenas por falta de oportunidade? Tarantino é um cinéfilo e assim filma, isso causa muita identificação nos seus fãs, que vêem na tela coisas que sempre quiseram ver em filmes e que só o Tarantino faz e com muito brilho. Os elementos tarantinescos já estão aqui: as reviravoltas cronológicas, o bom uso da trilha sonora e a cruenta violência. O final abrupto encerra um filme que marcou o início da carreira de um dos grandes diretores do cinema que, pela idade e pelo que já mostrou, certamente ainda nos dará muitas obras-primas. 

sábado, 24 de abril de 2010

Projeto Grindhouse + Falsos trailers + À Prova de Morte + Planeta Terror


(Grindhouse, 2007) pode ser analisado como um filme-projeto, mesmo suas partes sendo disponibilizadas para apreciação individual, uma vez que o Grindhouse original funciona diferente como filme, tanto pela idéia da dupla sessão e trailers fakes (idéia já usada em outros filmes), falsas propagandas e a deliciosa chamada “Prevues of Coming Attractions” quanto pelos próprios filmes À Prova de Morte e Planeta Terror, que no projeto tinham duração e edição diferentes, exatamente para que funcionassem juntos, um sendo gancho do outro; alguns personagens, como a anestesista, transitam nos dois filmes, sendo que À Prova de Morte vem primeiro. A idéia do projeto é maravilhosa e vem mesmo de gente que ama pra valer o cinema, não apenas aquele tipo de amor de cinéfilo enjoado que só fala em Fellini, mas aquele que gosta de tudo, contanto que esse tudo seja muito legal e criativo. Grindhouses eram salas de cinema dos anos 60 e 70 (em alguns filmes e em algumas matérias sobre cinema já vimos sobre elas) onde eram exibidos filmes de baixo orçamento, filmes chamados “B” ou “Z”; nesses filmes (que não podiam ser exibidos nos cinemas normais) imperavam as cenas de sexo e violência, aquele tipo de filme apelativo que hoje vemos com tanta satisfação em sessões como o Cine Trash, apresentado por Zé do Caixão. Nas salas grindhouse, o público pagava apenas uma entrada e podia ver até três filmes (o normal era a exibição de apenas dois). Isso lembra um pouco a emergência dos multiplex nos EUA, quando o pessoal saía de sua sessão para outras, enlouquecendo os lanterninhas. E essa idéia de pagar uma entrada e ver dois espetáculos não é novidade das grinhouses; já no século XIX, em Paris e na Inglaterra, por exemplo, havia essa prática (com algumas diferenças) nos teatros e nas óperas cômicas. Esse tipo de filme também dominou os drive-ins. As referências aos filmes da época, no projeto Grindhouse, são diversas, como as maravilhosamente propositais falhas técnicas, como a sofrível fotografia, riscos na tela, cortes bruscos, manchas, chuviscos, estalos, tremedeiras, falhas sonoras e até uma imagem como se o celulóide estivesse derretendo e uma mensagem aparecendo para dizer que o cinema não tem o rolo da parte faltante. Grindhouse junta uma turma de amigos da pesada, cada um com um bom currículo no gênero, Robert Rodriguez (que fez o ótimo Um Drink no Inferno), Eli Roth (que fez Cabana do Inferno e o ótimo O Albergue), Rob Zombie (A Casa dos 1000 Corpos e Halloween, o Início), Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto), além do Tarantino, roteirista em filmes como (Eles Matam e Nós Limpamos) e que foi um frequentador de grindhouses. O destino das grindhouses foi virar salas de filmes pornôs e exploitation nos anos 80. Vimos, muitas vezes, fato semelhante ocorrer no Brasil, onde salas clássicas viraram cinemas pornôs e estão aí até hoje. Salas que guardam seus pomposos nomes, como Art Palácio ou Cine Glória, e era exatamente assim a origem das grindhouses, oriundas dos Movie Palaces, criados durante a época de ouro do cinema americano nos 30 e 40.

Os falsos trailers:



Thanksgiving, de Eli Roth, é tipo um Sexta-feira 13 perverso e mostra um assassino, dos mais sádicos, atacando no Dia de Ação de Graças.

Eli Roth



Machete, de Robert Rodriguez, estrelado pelo expressivo Danny Trejo (presença constante nos filmes de Rodriguez e Tarantino), mostra um homem e sua devastadora vingança, seu nome é MACHETE, o vingador mexicano. O trailer virará um longa posteriormente.



Don’t, de Edgar Wright, junta vários elementos do terror com uma narração de arrasar, sendo dos falsos trailers o que mais tive vontade de ver como longa.

Edgar Wright



Werewolf Women of the SS, de Rob Zombie, com Nicolas Cage (como Fu Manchu), Sheri Moon Zombie (esposa do diretor), Bill Moseley e Udo Kier. É a história das experiências do Dr. Heinrich à serviço de Hitler, para criar um poderoso exército de “lobisomas”. Dizem que acharam documentos reais com essas loucuras, guardados em um esconderijo do ditador.

Rob Zombie




Agora veremos as duas atrações principais.



Seus diretores: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez





À Prova de morte, filme isolado do projeto Grinhouse, traz as cenas ditas “desaparecidas” na versão concorrente à Palma de Ouro em Cannes. São mais meia hora de filme, com uma sequência inédita em preto-e-branco. Conta a história de Stuntman Mike, um dublê sádico e misógino, que utiliza seu carro à prova de morte para matar mulheres brutalmente. Kurt Russell faz o personagem com perfeição, um homem violento dentro do seu carro, covarde e patético fora dele. Há bons diálogos, trilha sonora incrível e um excitante elenco feminino, com Tracie Thoms, Sydney Tamiia Poitier, Rosario Dawson e Mary Elizabeth Winstead (como Lee, uma mocinha tão linda quanto ingênua, deixada na boca do lobo pelas amigas rsrsrs); destaque para a linda e sensual atriz, Vanessa Ferlito, fazendo uma dança do colo ao som de Down in Mexico, cantada por The Coasters. Há, também, o Eli Roth no elenco, ou seja, é uma festa entre amigos. Na parte final do filme há duas sequências geniais, daquelas que só Tarantino realiza, um acidente magnificamente filmado e mostrado sob vários ângulos (até aqui a podolatria do Tarantino se faz presente) e a fantástica perseguição de carros. Quanto à perseguição, a sequência envolve dois “muscle cars” (carros com motores V8 super potentes), uma Chevy Nova preta com um pato endiabrado no capô e o outro, um desejado Dodge Challenger branco. Não poderia deixar de falar na personagem Zoë que na verdade é a atriz/dublê neozelandesa Zoë Bell fazendo ela mesma, motivo da excelência das cenas em que a personagem fica atada em alta velocidade no capô do carro e o público fica assombrado; Zoë já trabalhou com Tarantino em Kill Bill, sendo dublê de Uma Thurman. O filme termina ao som de Chick Habit, com April March. Perfeito.



Planeta Terror, filme isolado do projeto Grinhouse, tem uma duração maior com a adição de material inédito. No interior do Texas, a população é infectada por um gás tóxico (usado pelo exército – participação de Bruce Willis – dos EUA no Oriente Médio, lamentável). Os infectados tem os corpos cobertos por fístulas purulentas e esses mesmos corpos ficam como que podres, ao ponto de despedaçarem sem esforço (houve quem falasse que os efeitos deviam ter sido mais fracos, para combinar com o tipo de homenagem que o filme faz); não são zumbis ou mortos-vivos, mas, pra não fugir à regra passam a se alimentar de carne humana. Há uma personagem extremamente dramática, é a triste go-go-girl, Cherry Darling, que tendo parte da perna arrancada por um faminto infectado, tem, com a ajuda do ex-namorado, El Wray, uma metralhadora à guisa de prótese; essa loucura soa muito convincente (mérito de diretor e atriz), e quem faz o El Wray é o ator Freddy Rodrigues da querida série, À Sete Palmos. Daí em adiante o filme segue com muita ação e cenas inusitadas como a de El Wray fugindo em uma motinha de criança e uma galeria também inusitada de personagens: tem a ótima Dra. Dakota Block, anestesista que guarda na cinta-liga suas agulhas/armas; JT que em meio ao desespero geral só pensa em aperfeiçoar seu molho de churrasco, o melhor do Texas; a cantora Fergie sendo estraçalhada; o policial tarado, feito por Tarantino, que não pode fazer mal à sua vítima, pois seu pênis se decompõe; babás gêmeas; o terrível médico feito pelo ótimo Josh Brolin; o terrorista (o Said de Lost) colecionador de testículos; um pastor que vira matador; necrófilos etc. O diretor Robert Rodriguez (que também foi roteirista, compositor, editor, produtor e fotógrafo do filme) faz com sua obra uma homenagem ao George A. Romero e a outros nomes do gênero, e até à sua parceria com Tarantino, trazendo o personagem do xerife, famoso nos filmes Um Drink no Inferno e Kill Bill, Volume 1. Diversão garantida.

Kill Bill, Volumes 1 e 2




O filme-projeto, Kill Bill, volumes 1 e 2 (2003, 2004), anunciado como o 4º filme de Quentin Tarantino, é uma obra irrepreensível, que apenas o Tarantino podia conceber e realizar. É, também, um dos meus filmes favoritos, que me arrebatou de imediato já nos primeiros minutos de projeção e um dos filmes que nunca me canso de rever. Cada detalhe do filme é absolutamente cool e estilizado, gerando um efeito estético geral impecável e extraordinário. O filme já nasceu clássico, no mínimo Cult, e muito já se foi falado sobre ele. Mencionarei então os aspectos que mais me empolgam: chamar as partes de volume; o traje super amarelo da noiva, combinando com a moto e com a picape das gostosas; os closes fechados nos olhos, com a música do Quincy Jones nos momentos de tensão; as telas divididas; a listinha negra da noiva e a desordenação dos capítulos; belas tomadas de cenas de luta em contraluz e em preto-e-branco; a dramática origem de O-Ren Ishii, contada em anime, que beira o genial; a fantástica luta com Gogo Yubari, para mim, a melhor cena de luta do filme (ganhou até prêmio no MTV Movie Awards); o nome da Noiva, nunca pronunciado; a sequência inicial da segunda parte, com a noiva referindo-se aos anúncios da primeira e prometendo que agora vai matar Bill (quando a primeira parte findou, nunca senti tanta ansiedade de ver uma continuação); a genial teoria sobre o Superman. É, também, um filme homenagem; as referências são infindáveis e os exageros propositais. O elenco é perfeito; Uma Thurman como a Noiva ou Beatriz Kiddo ou Mamba Negra, fez um trabalho extraordinário, onde sofreu muito com os treinamentos e coreografias, eu diria que esse é, até agora, o papel de sua vida; Vivica A. Fox como Vemita Green, uma leoa defendendo seu lar e sua filha; Lucy Liu, linda e fatal, brilhando na bela luta na neve; Daryl Hannah perfeitamente venenosa e perigosa, tal qual sua alcunha de Cobra Californiana, a atriz rouba algumas cenas, como a que entra assoviando no hospital, com um figurino arrasador; Michael Madsen, um sujeito duro, justo e sincero; David Carradine como o famigerado Bill, um homem que exala periculosidade. A trilha sonora é outra preciosidade. Através de Tarantino, vamos descobrindo pérolas como Bang Bang, com Nancy Sinatra (minha favorita), música cuja letra traduz bem a relação da Noiva com Bill; a divertida Woo Hoo, e a belíssima Flower of Carnage, cantada por Meiko KajiThe, um luxo. Kill Bill é absolutamente perfeito. Amo esse filme (confesso que quando vejo os volumes separados, prefiro o 1º). Até que falei pouco, pelo xodó que tenho com a obra.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bastardos Inglórios











Sinceramente eu achei que essa não seria uma boa história, mesmo sendo do Tarantino; ainda bem que eu estava enganado. Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) é um ótimo filme, divertido e bem dirigido. Os elementos tarantinescos voltam com força: o tom didático, a extrema violência, a podolatria, mesmo que sutil, e a paixão pelo cinema, aqui mais escancarada do que nunca, sendo importante elemento da própria história contada; as referências ao cinema e sua história estão em toda parte, nos nomes, cenários, explicação sobre a inflamabilidade do celulóide etc. O que tem de genial na história é o fato de ser uma ficção, ou seja, o Tarantino teve a brilhante idéia de recontar a história a sua maneira e isso agrada muito e sacia um pouco a insaciável vingança contra os horrores do nazismo. Duas cenas marcantes foram a que o coronel Hans Landa interroga a espiã/atriz Bridget Hammersmark pegando em seu pé engessado (alto nível de tensão), e o outro momento (para mim a mais bela cena do filme) é a morte de Shosanna, toda de vermelho com os fragmentos de sangue saindo do seu ventre como rosas purpúreas. A trilha sonora, dessa vez, não é brilhante, mas não deixa de ser eficaz. Quanto ao elenco, tem a curiosa presença de Mike Myers (só curiosa), e o único que chama atenção e surpreende pelo magnífico desempenho é o Christopher Waltz, como o caçador de judeus, roubando todas as cenas em que aparece; já na abertura ele consegue nos cativar, mesmo seu personagem sendo nefando, num jogo verbal e psicológico, dirigido com primor por Tarantino. Indicado aos Oscars de filme e direção, venceu o de ator coadjuvante. Curiosidade: em Portugal o título do filme é Sacanas Sem Lei; achei hilário.

sábado, 10 de abril de 2010

Jackie Brown




Apesar de ser o menos badalado do Tarantino, Jackie Brown (Jackie Brown, 1997) é um filmaço, uma obra mais séria, que valoriza mais os diálogos, que aqui são afiados e “cabeça”. A história é contada sob vários pontos de vista dos personagens, o que torna o filme muito interessante, e nos faz perceber coisas que o outro ponto não mostrou (ou será apenas que mostrou e que só percebemos bem nesse outro ângulo por identificação?); a edição do filme é excelente nesse sentido. A trilha sonora não foge à regra dos trabalhos do Tarantino, é maravilhosa e, aqui, é assunto do próprio texto do filme, com o personagem Max Cherry compartilhando com Jackie Brown seu gosto musical; a trilha tem de Johnny Cash a Supremes, pra citar só alguns bons nomes. O elenco é brilhante; Samuel L. Jackson ótimo como sempre, ele não precisa fazer esforço nenhum pra convencer em nenhum papel; Robert De Niro manda muito bem num papel ao qual não estamos acostumados a ver o ator, aqui ele faz um cara aparvalhado e obtuso; Robert Foster num papel perfeito pra ele, um homem maduro, esperto, mas na dele, o ator foi indicado ao Oscar de coadjuvante por esse papel; Bridget Fonda faz bem a drogada relaxada, sem objetivo nenhum a não ser cheirar e ver TV, a cena de seus dedos dos pés próximos ao copo de uísque é marcante; Michael Keaton está correto como um policial “honesto” e Pam Grier é a estrela resgatada da vez; assim como havia feito com John Travolta em Pulp Fiction, o diretor resgata essa estrela dos anos 70, uma atriz com grande presença em cena, que dá ao personagem um charme todo especial. Talvez esse seja o filme mais pé no chão, ou mais sóbrio do Tarantino, talvez pelo fato de nas suas outras obras toda a maravilhosa loucura sair de sua fértil criatividade; aqui ele trabalha com personagens já prontos, Jackie Brown é adaptação do livro de mesmo título de Elmore Leornard (roteiro brilhante). De qualquer forma, é um grande feito de direção e interpretação, embalado por uma marcante trilha sonora. Filme muito acima da média.