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sábado, 28 de maio de 2011

“Eu te homo...”





Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World, EUA/Canadá, 2010) é uma grande e ótima surpresa, um filme muito agradável e divertido. O jovem e talentoso diretor, o traquinas Edgar Wright, não tem mesmo medo de ousar fazendo um filme baseado em um HQ, mas com visual de videogame. O resultado é muito bonito, muito artístico. As referências aos games são muitas, desde Mario até Street Fighter, enquanto os balões informativos e as onomatopéias aludem aos quadrinhos. Tudo isso é usado com muito tato, humor e competência por diretor e equipe, formando um todo coeso e gratificante de se ver, uma festa para os olhos. É mais que isso, os recursos gráficos muitas vezes definem os personagens e as cores significam emoções; nada está ali somente para ser divertido e bonitinho. A edição virtuosa é um show e devia ter sido indicada ao Oscar, mas como reflexo de sua bilheteria nos EUA, o filme foi ignorado, o que espanta num filme bem americano e com as qualidades que eles gostam; fico pensando que uma razão para os americanos não terem gostado do filme foi por não terem entendido nada, pois o enredo, apesar de simples, desenvolve-se de forma complexa, sendo o modo como o tempo é utilizado, um exemplo. A história é deliciosamente absurda ao extremo, pois o absurdo para ser delicioso, como em Bob Esponja e A Vaca e o Frango, tem de ser extremo.

 Scott Pilgrim (interpretado com êxito por Michel Cera, pois esse, mesmo se repetindo algumas vezes, tem carisma suficiente para sempre gostarmos dele na tela) é um jovem canadense comum (já que os personagens não tem noção ou não fazem caso de lutarem como heróis de videogames) que acabou de levar um pé na bunda da namorada, ficou com uma adolescente e desistiu desta por uma paixão fulminante, ou seja, um jovem bemmmm normal. Na verdade, tudo que Scott sofre é bem merecido, pois ele não hesita em deixar sua namoradinha quando Ramona aparece; Scott e Ramona são terríveis com os seus pares românticos, mas o são sem maldade, são apenas exemplares típicos dos jovens de hoje, cuja paixão é mais sensual que romântica. Mal começa a se envolver com Ramona e descobre que tem pela frente a tarefa de enfrentar os sete ex-namorados do mal, que não se conformam de terem levado cada um seu próprio pé na bunda. As lutas contra os ex-namorados significam amadurecimento e superação; são fases (como nos games) que Scott tem de não apenas superar, mas vencer mesmo, ou não evoluirá. Ramona também passa por fases, mostradas na mudança da cor de seus rebeldes cabelos; olhando direitinho todos passam por alguma mudança, como uma das exs de Scott que consegue finalmente lhe perdoar, o amigo gay que se impõe e põe Scott para fora de casa, etc. Outro fator tratado com realidade é a falta de beleza física de Scott (pelo menos a beleza estereotipada); ele não tem certos atrativos físicos, mas se mostra incrivelmente atraente por dentro, e isso faz as garotas se apaixonarem por ele, coisa que acontece muito com os jovens de hoje, que a apesar de se rasgarem por seus belos ídolos, na vida real dão mais valor ao conteúdo do seu par romântico (falo dos jovens modernos e inteligentes, pois a parcela ignóbil ainda existe). Os efeitos especiais, os gráficos, dão ao filme uma surpreendente veracidade, pois espelham fielmente os jovens de hoje e seu mundo fantástico, jovens que não tem mais vergonha de serem nerds ou o que quiserem ser; eles são a bola da vez.

O jovem elenco é ótimo, todos combinando com seu personagem, como Anna Kendrick fazendo a irmã de Scott, Jason Scwartman como o vilão mor Gideon Graves, Aubrey Plaza como a boca suja Julie Powers, Alison Pill excelente como a invocada Kim Pine, Mary Elizabeth Winstead como a fulgaz Ramona Flowers, Johnny Simmons como Young Neil e Mark Webber como Stephen Stills se saem bem também; dois galãs do cinema atual fazem pontas divertidas, Chris Evans como o galã Lucas Lee e Brandon Routh como o vegano Todd Ingram; destaque especial para Ellen Wong como Knives Chau, a ficante quase namorada abandonada de Scott, e Kieran Culkin (irmão de Macaulay, na aparência e no talento) como o melhor amigo de Scott, cujo fato de ser super gay não é levado em conta pelos outros personagens (Scott até dorme no mesmo leito que ele), outra característica dos jovens de hoje, cada vez menos preconceituosos (falo dos saudáveis psiquicamente).

Sobre o diretor, todos concordam que é talentoso e inventivo, como mostrou em “Todo Mundo Quase Morto” e “Chumbo Grosso” (filmes batizados de trilogia sangue e sorvete; o terceiro ainda está por vir) e parte desse talento tem influência do amigo Quentin Taratino, com quem já contribuiu com o divertido trailer fake “Don’t” para o projeto Grindhouse. Interessante como ninguém ainda falou sobre as referências a Kill Bill, que para mim são bem claras: o didatismo das informações em balões, aqui usadas como elemento cômico; a lista de vilões destinados à morte; e as brigas entre mulheres, sendo a luta entre Ramona Flowers e sua ex Roxy Richter uma nítida homenagem à luta entre Beatrix Kiddo contra Gogo Yubari. Scott Pilgrim Contra o Mundo é um refrigério.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Chiste...

Jim Carrey parodiando Cisne Negro

Madea como o real Cisne Negro, rsrsrs...




terça-feira, 29 de junho de 2010

“Onde estaríamos sem nossas infâncias sofridas!?”





O filme, Correndo com Tesouras (Running with Scissors, 2006), é uma da adaptação do livro autobiográfico de Augusten Burroughs. Nos anos 70, o jovem de 13 ou 14 anos vive em uma família de classe média composta por um pai alcoólatra e uma mãe com transtorno bipolar. A mãe, Deirdre, é uma poetisa que sonha com a fama e com a publicação de suas poesias. Desde criança, a mãe nunca deu uma criação convencional a Augusten, não fazendo questão, por exemplo, que ele fosse à escola. Com o agravamento contínuo das brigas, o casal vai a um especialista, que não sabemos quem indicou à mãe. Entra em cena o médico de almas, tão grave quanto hilário. Lembram da doutora Perci, do Toma Lá, Dá Cá? Bem, Miguel Falabella deve ter visto esse filme para criar a personagem, pois os métodos dos dois especialistas são iguais: a terapia do confronto. Ele arruína a psique dos que estão aos seus cuidados. O psicólogo diz tudo à queima roupa. Quando a mãe diz “Eu fracassei como esposa e como mãe”, ele diz rápido e taxativo “Sim, fracassou”; ela faz uma cara de surpresa, pois nunca esperaria essa resposta de um profissional que está ali para lhe confortar; o resultado é hilário. Em outra cena, quando o filho pergunta “O que há por trás daquela porta?”, o médico responde “É uma sala adjacente, onde me masturbo”, e ele está falando a verdade. A casa do médico é tão terrível quanto aos moradores do que quanto à bagunça, enfim, um ambiente sujo e caótico. Uma galeria de personagens malucos é apresentada e todo tipo de absurdo acontece. A mãe está totalmente submetida às vontades do médico e Augusten é obrigado a morar nessa casa por um tempo, e é aí que começa a escrever diariamente sobre seu padecimento nesse manicômio. A filha mais velha do médico, Hope, é a preferida do pai e ele diz isso abertamente, para desconforto da mais nova. Todos estão, por causa do médico, impregnados de psicologia, e a linguagem que usam é técnica; em um jantar, por exemplo, as irmãs brigam verbalmente o os termos usados são “fuga”, “transferência”, “Você nunca chegará à anal, estará sempre na oral” (referência às fases oral, anal e fálica ou genital ou, ainda, da libido de Freud); todos no filme provocam raiva no próximo, mas quando há uma reação, dizem “não transfira sua raiva para mim” (vou começar a agir assim, rsrsrs.). A gata da família chama-se Freud; ela diz que sonhou que vai morrer, e isso é só o começo. Para o médico, que prescreve remédios como que para suas cobaias, uma pessoa fica adulta aos treze anos e isso dá a essa pessoa total autonomia sobre sua vida; imaginem o que acontece! Também há espaço para descobertas sexuais, a mãe é bi, Augusten é gay (ele encontra um companheiro no filho mais velho do médico; curiosidade: eles vão a um festival de filmes da pouco conhecida diretora Lina Wertmuller). Lá pela metade do filme, acontece algo que temíamos, começamos a perceber que debaixo de todo absurdo, os dramas dos personagens são verdadeiros, duros e profundos, e não achamos mais tanta graça das situações, isso seria rir da miséria alheia. A personagem com mais cara e comportamento de louca, Agnes, esposa do médico, revela-se talvez a pessoa mais sã de todos, absorta em si mesma; talvez ela tenha percebido que “quando não encontramos o que procuramos por tanto tempo, talvez seja porque esteja em outro lugar”. Ela percebe que Augusten ainda tem salvação e investe nele no sentido de tirá-lo desse hospício; ela acha nele um afago à sua sede de família normal e isso é recíproco da parte dele. Ele sente falta de regas e limites, e acaba tendo que decidir-se por uma fuga rumo à vida. Agnes é feita pela atriz Jill Clayburgh, numa interpretação comovente. Filme e personagens tem um clima que lembra Os Excêntricos Tenenbaums, só que mais louco ainda. Enfim, um forte drama disfarçado de comédia; ou então sem disfarce nenhum, já que parece ser comédia pelo absurdo das situações, mas são absurdos reais; então a vida tem mesmo seu teor de comédia, e comédia de humor-negro. Além da Jill Clayburgh, o ótimo elenco conta com Annette Bening, Brian Cox, Joseph Fiennes, Evan Rachel Wood, Alec Baldwin, Joseph Cross e Gwyneth Paltrow. A trilha sonora cabe no filme com uma luva, terminando com a belíssima Stardust, cantada por Nat King Cole. 

I Love You Phillip Morris


Steven Russell é um desses sujeitos carismáticos, inteligentes e com uma lábia admirável. Mas não é perfeito não, ele não resiste ao ganho fácil, a ser desonesto, e nisso é tão confiante em si mesmo, que acaba sempre exagerando na dose e metendo os pés pelas mãos. Vemos sua trajetória de policial, esposo e pai à gay, golpista e detento. Na prisão, ele conhece o Phillip do título (I Love You Phillip Morris, 2009), e tem um tipo de lua de mel. Consegue safar a si e ao namorado, vira advogado de sucesso, mas não se emenda. É um filme mediano que só chamou mais atenção pelo fato dos protagonistas serem gays, fato que o filme em si não usa como chamariz, pelo contrário, mal nos lembramos desse detalhe e isso é um ponto positivo, pois torna esse um filme sobre pessoas e não um filme “gay”, como se os gays tivessem que ter tudo separado, até um gênero cinematográfico. Nesse ponto, o filme se sai muito bem, ao mostrar o Steven Russell tão normal que o fato de ser gay (apesar de estar óbvio no filme) com o tempo é esquecido. Ele é mais um malandro, o cara “desenrolado”, como há tantos. Quando ele mente para seu amor, Phillip Morris, vemos apenas o sujeito safado que mente mais por hábito que por maldade, como vemos tantos héteros fazer igual; daí vem os problemas na relação etc. Ele aprende que mentir para quem ama não leva a um final feliz. O final melodramático faz do próprio espectador mais uma vítima das mentiras do Steven Russell e isso me surpreendeu. Ewan McGregor faz bem o papel do mocinho apaixonado e melindroso; Rodrigo Santoro dessa vez fala um pouquinho; e Jim Carrey é um excelente ator que se entrega por completo aos seus personagens, mas apesar de fazer o Steven com gosto, não sinto que ator e personagem se encaixem, ele faz o personagem com tanta vontade que acaba ficando muito “over”; faltou uma mão boa do diretor nesse ponto.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Rei da Comédia



Esse é um filme curiosíssimo, pelo fato de talvez ser o contrário de uma comédia. Não dá para ter uma noção das estruturas dos personagens em só uma assistida. A primeira das amargas ironias está no título, o filme é apresentado como comédia, o personagem principal se vê ou tem a pretensão de ser comediante, e o verdadeiro comediante da história não tem nada de engraçado na sua vida real. Ou seja, tudo que se pretende engraçado, não é de fato. É tudo aparência e fingimento, ou melhor, amarga ilusão (por mais que se acredite nela). Acho uma ousadia do Scorsese ter feito O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1982) e uma ousadia maior ainda do Robert De Niro fazer um homem mais que patético, pelejando para ser o rei da comédia, e ainda por cima atuar com Jerry Lewis numa área que ele domina; o resultado foi uma atuação excelente, assim como a do próprio Lewis. A presença excêntrica da Sandra Bernhard é algo que sempre me agrada. Bom filme para reflexão.

Depois de Horas



Scorsese consegue pintar sua querida Nova York das formas mais pungentes ou mais sutis, como nessa “comédia”, nos mostrando os vários tipos da cidade e suas loucuras particulares e coletivas. Depois de Horas (After Hours, 1985) é tido por um dos mais completos e complexos do Scorsese, dando margem a interpretações diversas. Griffin Dunne está ótimo como o cara que se vê envolvido em uma engraçada (para nós) seqüência de equívocos. Palma de Ouro de direção.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Um Sonho Sem Limites

Olha só como o Gus Van Sant faz bons filmes, quando ele foge de seus fetiches. Acompanhamos a deliciosa história de uma mulher que tem uma meta na vida e ai de quem estiver no seu caminho. Nicole Kidman está ótima e foi premiada pelo trabalho (Globo de Ouro). Vemos história igual no filme Eleição de 1999, com a também ótima Reese Whiterspoon.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Kika


Uma das obras do Almodóvar que mais aprecio. Quando vi a primeira vez, não acreditava nas loucuras que via a cada cena. Ria muito. Hoje rio mais ainda, pois compreendo mais. O termo kitsch é muito usado em relação a esta comédia mais que nas outras do Almodóvar. A história não é bem assim para quem conhece a origem do termo, mas é uma daquelas apropriações ou associações que fazem com um certo termo e ele acaba passando significar também a coisa assimilada etc etc.

De Salto Alto


Ótimo filme em que Almodóvar mistura humor e suspense em doses equilibradas. Às vezes parece que Almodóvar está se divertindo muito numa espécie de paródia dos melodramas do passado, gênero que com certeza ele deve gostar muito. Quanto ao elenco, eu amo as mulheres do Almodóvar, as de ontem mais que as de hoje.

Maus Hábitos


Ótima comédia da primeira fase do Almodóvar. Redentoras Humilhadas, Irmã Esterco... tudo muito hilário e ousado. Não é a toa que o filme demorou 15 anos para chegar no Brasil.

Um segredo em flor


Com A Flor do Meu Desejo, temos um Almodóvar delicado, sofisticado e cheio de estudados detalhes, a começar pelo significado do nome Amanda Gris, pseudônimo da escritora Leo. É um filme com várias camadas, exigindo atenção do espectador. Lea é uma escritora em crise pessoal e emocional. A mudança que a vida nos impõe a levará a um desejo de honestidade consigo mesma. Depois de tantos anos de conformismo e comodismo, tudo que ela quer é “... ser clara e sincera” A Canção tema"La Flor di Mi Secreto" fica por conta do grande Bola de Nieve.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos



Louca comédia. Cada uma dessas mulheres tem um motivo para estar à beira de um ataque de nervos. Novamente Almodóvar injeta drama e suspense na comédia e o resultado dá super certo, isso por que ele é um mestre. Como é bom ver em cena a maravilhosa Carmem Maura, a minha atriz preferida dos filmes de Almodóvar. E como é deliciosa a exótica presença de Rossy de Palma.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Elvira – A Rainha das Trevas



Eu não podia deixar nunca de elogiar um trash luxuoso desse, rsrsrs. Me divertiu tantas e tantas vezes na sessão da tarde. Ela é pilantra e ingênua ao mesmo tempo. No filme, ela arruma um trabalho de apresentadora engraçada de programa de filmes de horror (idéia boa), e é isso mesmo que ela sempre fez na TV americana, com grande sucesso; é tipo o que Monique Evans fazia no programa Noite a Fora (só que falando de sexo). Elvira é muito amada nos EUA, onde virou marca de vários produtos. Não há quem resista. Até Fellini a chamou a Cassandra Peterson para uma ponta no filme Roma de 1972.

O Jovem Frankenstein

Um clássico do humor, dirigido pelo grande Mel Brooks. Mel Brooks é tão genial quanto Woody Allen, apesar de ser bem menos badalado. A diferença é que o humor de Allen é essencilamente textual, enquanto Brooks se destaca mais nas gags e humor non sense. Esta sua paródia do Frankenstein de Mary Shelley faz rir muito e tem momentos brilhantes, como os do monstro com o cego. Gene Wilder como o doutor Frankenstein e Peter Boyle como o monstro estão impagáveis, mas o verdadeiro biscoito fino com que o Mel Brooks conseguiu foi nos brindar com a chance de ver o ator Marty Feldman como o Igor, com direito a muitos olhos virados, rsrsrs! Imperdível.

O Barato de Grace

O filme aborda com humor e leveza um assunto sério, o que lhe dá um tom talvez apologético. O consumo da famosa erva é mostrado com naturalidade e conhecemos a planta mais de perto. O roteiro tira proveito do modo de vida inglês, que é famoso tanto pela fleuma como pela excentricidade. A Grace do filme é feita pela grande atriz Brenda Blethyn. O resultado geral é uma comédia despretensiosa e interessante por seu teor inusitado.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lembranças de Hollywood

Ótima comédia dramática; um retrato cáustico de uma Hollywood que não conhecemos. Um grande elenco, onde Shirley MacLaine e Meryl Streep brilham absolutas. Carly Simon assina as músicas do filme; ela já tinha trabalhado com Nichols em A Difícil Arte de Amar. O filme é baseado no livro autobiográfico da atriz Carrie Fischer. Ela tinha um relacionamento conturbado com a mãe também atriz, Debbie Reynolds. Outro acerto do Mike Nichols, sempre crítico, sempre penetrante.

A Morte Lhe Cai Bem

Louca comédia de Robert Zemeckis, um diretor que trabalha muito bem com efeitos especiais (ganhou o Oscar). Muito bom ver Goldie Hawn e Meryl Streep juntas. O elenco conta ainda com a bela Isabella Rossellini.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Odisséia dos Coen

Só mesmo os irmãos Coen para recontar o périplo de Odisseu de forma tão inusitada. O resultado é maravilhoso. Eles tiveram a cara de pau de responder aos jornalistas, durante o festival de Cannes, onde o filme foi apresentado, que a obra não é baseada na Odisséia de Homero e que nem sequer conheciam tal obra. Isso na época deu enorme insegurança aos críticos de fazerem suas resenhas sobre o filme. Trata-se de um Road movie rural, passado em 1930, embalado por ótima trilha sonora. Mostra a fuga de três detentos sempre atados um ao outro por correntes, e sua cruzada em busca por um tesouro enterrado. Durante o percurso vão ocorrendo impagáveis situações, como o encontro com um “bluezeiro” que vendeu a alma em troca do dom de tocar violão; um gângster, que é o próprio Babyface Nelson; um caixeiro viajante; e lindas lavadeiras, donas de um hipnótico canto (é óbvia a referência as sirenas e cada vez que vemos o filme vamos descobrindo outras referências). No final do filme, aparece ainda uma referencia à Odisséia que não se pode negar, a figura do simpático cego, que obviamente evoca Tirésias. Tudo isso regado ao habitual humor dos Coen. A fotografia também dá um show.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Cara


Passei um tempão ignorando este filme dos Coen, não sei se por causa do título ou do trailer que não me chamavam atenção. Quando vi a primeira vez, logo me arrependi de não ter visto antes; hoje é um dos meus preferidos dirigidos pelos Coen. Os Coen são especialistas em criar personagens interessantes e fazem sempre uma prévia descrição deles no inicio dos filmes. Aqui há uma enorme galeria de personagens no mínimo incomuns, ou então caricaturas do comum. Mas nenhum personagem é tão rico e divertido como Jeffrey Lebowski, ou como ele mesmo se intitula “o Cara”. O narrador diz que é possivelmente o cara mais preguiçoso de Los Angeles; eu acho que vai muito além. Nunca vi personagem tão desleixado; o cabeludo vai ao super mercado de calção, chinelo, roupão e óculos escuros, e paga uma caixa de leite com um cheque. O texto dos atores é delicioso e o roteiro cheio de divertidas confusões. O Cara é confundido com outro Lebowski (o Grande), um milionário casado com uma mulher que deve dinheiro a um mafioso. Dois capangas invadem a casa do Cara e exigem que ele pague a quantia. Um dos capangas faz algo terrível: mija no tapete. Quando se dão conta de que pegaram o cara errado, vão embora, mas o estrago está feito, mijaram no tapete. O Cara vai à procura do outro Lebowski, para que este pague seu tapete. Daí por diante é só confusão. Nas loucas confusões em que se mete, o Cara tem sempre o apoio de seus amigos, Walter, um veterano de guerra do Vietnam que vê conspiração em tudo (vigorosa atuação de John Goodman), e Donny, um sujeito perdido e abobalhado e mesmo assim o mais normal do filme. O filme flerta com o cinema Noir e faz homenagem ao cinema independente, trazendo no elenco grandes atores que tiveram importância nesse cinema: John Goodman, Steve Buscemi, Julianne Moore, David Huddleston, Philip Seymour Hoffman, Tara Reid, Ben Gazarra, John Turturo e Jon Polito. Jeff Bridges nunca esteve tão bem como um cara largadão, amante do boliche e que vive tendo altas viagens sob o efeito da maconha. John Turturo está bizarro como a lenda do boliche, Jesus Quintana, um cara pedófilo e vestido com roupa de poliéster. Ri muito no final do filme, quando eles vão jogar as cinzas do defunto no mar. O Grande Lebowski é comédia da mais alta qualidade.

domingo, 30 de agosto de 2009

Stay Happy


O inglês Mike Leigh é um dos cineastas mais brilhantes da atualidade. Sempre acerta em seus filmes, alguns são obras-primas, como Naked e Segredos e Mentiras. Outros destaques importantes são Topsy-Turvy – O Espetáculo e O Segredo de Vera Drake. Desta vez quero falar do seu mais recente filme, Simplesmente Feliz (Happy Go-Lucky, 2008). Simplesmente Feliz é um filme especial, diferente, curioso e ótimo além de tudo. O roteiro original indicado ao Oscar, roteiro do próprio Mike Leigh, nos apresenta Pauline, a Poppy; uma mulher que decidiu adotar uma filosofia de vida: ser feliz. Malgrado seu o mundo em que ela vive anda meio desacreditado de que uma coisa como a felicidade ainda exista. Toda tentativa de Poppy de ser legal com os outros soa para eles como algum tipo de amolação. O início do filme já deixa clara a atitude da personagem diante da vida, quando em uma livraria ela insiste em ser simpática com um alheio livreiro assistente com humor de bibliotecário e, principalmente, quando diante de um livro chamado The Road to Reality (A Rua para a Realidade) ela diz: “Não quero ir para lá” e dá um risinho. Lembra um pouco Blanche DuBois no filme Uma Rua Chamada Pecado, quando ela diz “Não quero realidade. Quero magia”. Mas, ao contrário de Blanche, Poppy não tem traumas nem lhe falta um pouco de sanidade. Poppy, apesar de desengonçada e do figurino de gosto duvidoso, é lúcida e inteligente e percebe que sua atitude é encarada com estranheza, mas não desiste de ser como é, não porque ache que vá mudar o mundo mas porque ela gosta de ser simplesmente feliz, apesar dos outros. Essa felicidade toda torna-se, na maior parte do tempo, algo irritante para alguns personagens do filme e para muitos espectadores que não entenderam a mensagem do filme. Poppy passa quase todo o filme rindo e fazendo piadas com tudo. Até quando a coisa aperta ela ri, só que nervosamente. Mérito de Leigh e da excelente atriz Sally Hawkins. A atriz ganhou o Globo de Ouro por este papel. Há momentos cômicos, como a patética cena da professora de flamenco; e há momentos em que a felicidade inabalável de Poppy é posta em prova. São nesses momentos que vemos que Poppy não tem nada de boba e tem uma perfeita noção da dureza da realidade: o menino que bate nos coleguinhas; a visita à irmã mais velha; a estranha cena com um mendigo, e principalmente sua briga com Scott, o instrutor da auto-escola. O instrutor é feito pelo ótimo Eddie Marsan, e é o oposto de Poppy no filme. Ao contrario dela ele é mal-humorado e sempre vê o lado negativo da vida. Esses opostos se completam, mas não vencem um ao outro, o que faz a sensata Poppy se afastar e seguir sua vida. Ela termina o filme como começou, feliz e dizendo para todos um desconfortante “continue feliz”.
PS: Nos laboratórios de informática do Centro de Artes e Comunicação onde estudo, há um monitor, o querido Leonardo, que quando as pessoas acabam seus horários e vão embora, ele se despede dizendo “seja feliz”. E as pessoas o olham desconfiadas achando sempre que ele está zombando delas. Um dia ele confessou que fica triste com essa atitude, quando o que ele deseja é totalmente sincero. Parece que no mundo cético de hoje a felicidade se tornou uma utopia. Isso é pior do que a indagação de Macabéia no livro de Clarisse Lispector, A Hora da Estrela. Quando ela pergunta “Ser feliz serve de que?” ela faz uma indagação sobre algo cuja significação lhe escapa. Enquanto nós sabemos o que significa ser feliz. Só que achamos que isso é coisa dificílima de conseguir, quando difícil mesmo é enxergar que muitas vezes já o somos sem perceber. Então talvez não saibamos de fato o que é ser feliz. Que forma triste de ignorância. Leiam abaixo o soneto narrativo de Guilherme de Almeida:
Felicidade

Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada!"
E eu respondi: "Bom dia, folha morta!"

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então, chamou-me e disse: "Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!"

E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!