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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Volver



Volver é mais um trabalho brilhante do Almodóvar. Lindo demais em significado. Uma história de mulheres maravilhosas, onde até o fantasma da vó é um persongem com grande humanidade. Na época do lançamento, o diretor comentou o seguinte numa entrevista: “Volver, sendo meu filme mais bairrista, causou-me temor de que ele só fosse compreendido em La Mancha, onde nasceu. Mas o prêmio (Globo de Ouro) demonstra que o filme tem asas e que em qualquer lugar a luta destas mulheres solidárias e sós, agredidas e agressoras, será compreendida”. Almodóvar consegue como ninguém transformar o absurdo em banal e isso traz uma grande empatia entre expectador e personagens; isso faz com que tenhamos muito carinho por seus filmes. Também é interessante como percebemos um amadurecimento na obra do diretor a cada filme; não é uma mudança que passa despercebida; ela é patente em cada cena, em cada atitude dos personagens e no conjunto. Tudo leva a crer que ainda vamos ter muitas obras-primas desse cineasta que nunca deixou de ser autêntico. Quanto à Penélope Cruz, o que posso dize é que eu era indiferente a ela até ver este filme. Está perfeita em atuação, canto e beleza, sendo indicada ao Oscar.

Fale com Ela



Um dos mais belos e poéticos filmes do Almodóvar. Belo em imagens, palavras e som, o filme parece que foi feito para deleitar o espírito. Até uma tourada (coisa que abomino) fica linda, quando o diretor é um isnpirado Pedro Almodóvar. Esta cena da tourada, com música de Elis Regina, já entrou para a história do cinema. O Brasil também está no filme na presença de Caetano Velsoso, cantando lindamente. Percebe-se nitidamente que a cena é um presente e uma homenagem de Almodóvar ao seu amigo Caetano. Há ainda uma homenagem ao cinema mudo no lindo curta da autoria do Almodóvar “O Amante Minguante”. A cena final então...

Aula de metalinguagem



Má Educação é um grande êxito do Almodóvar. Um filme que usa a metalinguagem para desenvolver seu complexo roteiro. A sofisticada direção do Almodóvar nos leva a acompanhar, por três décadas diferentes, claro, a história de vida de Ignacio, Enrique e padre Manolo, todos personagens ricos e difíceis. Em certo momento do filme, começa um jogo de espelhos, um filme dentro do filme, com cores noir; um Almodóvar se reiventando, num filme tão sombrio quanto amargo. Com certeza um dos melhores do Almodóvar, mas que foi ignorado pelos festivais e nem sequer concorreu ao Oscar de filme estrangeiro; mesmo em Cannes, tido como um festival tão libertário, o filme foi recebido com frieza. Isso mostra como até o público mais avançado intelectualmente ainda sofre com bloqueios e preconceitos quando se trata de temas que lhe são espinhosos. O grande destaque é o ótimo Gael García Bernal, que fez brilhantemente um travesti. E ainda teve quem fizesse comparações com o travesti que o Rodrigo Santoro fez em Carandiru. Péssimo desempenho do Santoro.

A mais irresistível das leis


O título A Lei do Desejo explica muito bem o filme. A história é tida pela crítica como autobiográfica. Os temas preferidos do Almodóvar estão firmes e fortes aqui, pulsão sexual, homossexualidade e amor doentio. Temos a maravilhosa presença da atriz Carmem Maura e um jovem Antonio Bandeiras quase repetindo seu personagem do filme Matador. Devido a algumas cenas fortes como passivo, o ator tentou como pôde, proibidor o relançamento do filme nos cinemas 20 anos depois. Uma coisa muito boa nos filmes do Almodóvar é a injeção de cultura que ele dá ao seu público através de referências literárias e, principalmente, através da música. Vi este filme no extinto Cine Arraial, no antigo Teatro do Arraial, na Rua da Aurora, um lugar para os cinéfilos mais arraigados. Foi a primeira que vez que ouvi Ne Me Quitte Pas com Maysa Matarazzo (a melhor intérprete da canção no mundo todo). Imaginem como me senti. Depois descobri a música em Nina Simone e tantas outras, mas a versão da Maysa nunca foi superada na minha lembrança. Imagino que a mesma coisa aconteça com outros públiocos em outras plagas, quando num filme maravilhoso como Fale com Ela, ele põe uma música de Elis Regina. Meus profundos agradecimentos a Almodóvar.

Ata-me!


Tratar de amor é algo que exige uma dose a mais de lucidez, já que este sentimento lúcido, tem o dom maravilhoso de, contrário a si mesmo, turvar a clareza de pensamento. Neste assunto, Ata-me!, um dos filmes mais calientes do cinema, é arrasador. Principia com um seqüestro (quantos de nós já não teve vontade de fazer igual?) de uma jovem (objeto de desejo). A jovem tem o desejo da liberdade. O prazer se impõe. O desejo é apaixonado, não o prazer. O desejo de liberdade abranda-se. O objeto de desejo identifica-se com o objeto desejador. Cessação do desejo de liberdade. Aceitação, por identificação, da condição de sujeição. O desejo de liberdade continua, só que a liberdade agora só é possível se atada e pertencente ao outro. Os dois papéis agora se confundem numa união insalubre. O objeto de desejo agora é o desejador, mediante a idéia que tem de poder ser parte integral do outro. Um jogo arrebatador. Almodóvar em grande forma.

Kika


Uma das obras do Almodóvar que mais aprecio. Quando vi a primeira vez, não acreditava nas loucuras que via a cada cena. Ria muito. Hoje rio mais ainda, pois compreendo mais. O termo kitsch é muito usado em relação a esta comédia mais que nas outras do Almodóvar. A história não é bem assim para quem conhece a origem do termo, mas é uma daquelas apropriações ou associações que fazem com um certo termo e ele acaba passando significar também a coisa assimilada etc etc.

De Salto Alto


Ótimo filme em que Almodóvar mistura humor e suspense em doses equilibradas. Às vezes parece que Almodóvar está se divertindo muito numa espécie de paródia dos melodramas do passado, gênero que com certeza ele deve gostar muito. Quanto ao elenco, eu amo as mulheres do Almodóvar, as de ontem mais que as de hoje.

Maus Hábitos


Ótima comédia da primeira fase do Almodóvar. Redentoras Humilhadas, Irmã Esterco... tudo muito hilário e ousado. Não é a toa que o filme demorou 15 anos para chegar no Brasil.

Matador


Um dos filmes menores do Almodóvar. O roteiro irregular contém o germe de todos os traços marcantes que veremos nas obras posteriores (não em todas) do diretor. Participando do filme como um estilista, quando uma repórter lhe faz uma pergunta, vemos na resposta do estilista uma defesa do Almodóvar em relação à sua obra, uma afirmação da sua postura como cineasta e uma resposta aos críticos que malhavam seus filmes. Bom filme.

Um segredo em flor


Com A Flor do Meu Desejo, temos um Almodóvar delicado, sofisticado e cheio de estudados detalhes, a começar pelo significado do nome Amanda Gris, pseudônimo da escritora Leo. É um filme com várias camadas, exigindo atenção do espectador. Lea é uma escritora em crise pessoal e emocional. A mudança que a vida nos impõe a levará a um desejo de honestidade consigo mesma. Depois de tantos anos de conformismo e comodismo, tudo que ela quer é “... ser clara e sincera” A Canção tema"La Flor di Mi Secreto" fica por conta do grande Bola de Nieve.

Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos



Louca comédia. Cada uma dessas mulheres tem um motivo para estar à beira de um ataque de nervos. Novamente Almodóvar injeta drama e suspense na comédia e o resultado dá super certo, isso por que ele é um mestre. Como é bom ver em cena a maravilhosa Carmem Maura, a minha atriz preferida dos filmes de Almodóvar. E como é deliciosa a exótica presença de Rossy de Palma.