quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

As Bruxas de Salem

Entre 1950 e 1956, os EUA foram aterrorizados pelo chamado marcartismo, uma caça a comunistas, feita pelo Comitê de Atividades Anti-americanas do senador Joe McCarthy. Várias pessoas suspeitas ou que apresentassem um comportamento considerado suspeito, eram detidas e muitas vezes coagidas a delatar outras pessoas que supostamente fossem comunistas. Os delatores, por vezes entregavam pessoas apenas por se verem eles mesmos livres. Isso ocorreu em todas as áreas e o meio artístico sofreu muito. Todos sabem do caso com o Elia Kazan. O dramaturgo Arthur Miller, autor de peças importantes como A Morte de um Caixeiro-Viajante e famoso pelo envolvimento amoroso com Marilyn Monroe, sofreu as intimidações do Comitê e escreveu a peça The Crucible (Traduzida no Brasil como As Feiticeiras e Salem). A analogia é perfeita, já que o marcartismo ficou justamente conhecido como caça às bruxas.

Em 1692, em Salem, um grupo de jovens moças apresentou um comportamento fora do comum, como gritos, transes, ataques convulsivos (que podiam ser epilépticos), e como esse fenômeno se repetisse em outras jovens, houve uma investigação, descobrindo que tais jovens estavam sob influência de uma escrava negra, vinda de Barbados (ela praticava o vodu). Tomados pelo pânico, os moradores começaram uma torrente de denuncias uns contra os outros. A situação fugiu do controle local e um tribunal instaurou-se. 150 pessoas, a maioria mulheres, foram ouvidas, e 19 julgadas e condenada à forca, como bruxas, ou conluio com o demônio, marido delas (rsrsrsr). Diz-se que até um cachorro foi condenado. Anos depois se reconheceu o erro cometido, mas já era tarde; já se tinha dado um dos mais negros capítulos da história norte-americana. A peça do Arthur Miller retrata com muita exatidão o fato histórico e foi adaptada para o cinema neste filme.
O forte do filme é o elenco, com Joan Allen, Daniel Day-Lewis e Winona Ryder soltando faíscas quando se encontram, e o shakespeariano Paul Scofield. Uma coisa interessante, é que em alguns momentos as moças, no tribunal, dão a impressão de estarem realmente vendo o demônio; um recurso do diretor, para causar emoção.

A reflexão que podemos fazer é que As bruxas de Salem se repetem em todos aqueles que são injustamente perseguidos, não só EUA, como foram os gays, negros, e indivíduos da lista negra do marcartismo, mas em todos os lugares do mundo, onde não existe tolerância.

Blade Runner

Esta ficção científica noir é um dos filmes mais cultuados do cinema e a cada ano que passa ganha mais importância e é tema de estudo, devido a sua impressionante atualidade. O filme feito há quase trinta anos, mostra o mundo em 2019 e claro que esse mundo é sombrio e decadente. É uma história complexa que aborda a questão filosófica da perda de identidade, um problema sério que a contemporaneidade deliberadamente ignora. Outro problema sério que a sociedade não ignora tanto assim, é o imperialismo do capitalismo infligindo todo tipo de ética. No filme, a engenharia genética cria seres virtualmente idênticos aos humanos, chamados replicantes (impossível não fazer hoje uma analogia pelo menos com as palavras replicante e clone) com o objetivo de servirem como mão de obra escrava (sempre a necessidade de escravizar); alguns replicantes (eles só tem quatro anos de vida) se rebelam, e passam a ser caçados por um blade runner. Ridley Scott dirige tudo isso com genialidade. A sua versão tinha um final bem menos otimista e mais sombrio, de acordo com o livro, mas os produtores exigiram um final mais light, mesmo que em desacordo com o resto do filme. Mesmo assim o filme não foi bem nas bilheterias, e imagino o porquê, só ganhando importância depois, quando analisado com mais calma. Harrison Ford está perfeito no papel do frio caçador de andróides. Há uma questão famosa entre cinéfilos sobre se o personagem dele é ou não um replicante, o que para mim sempre foi patente que sim, pois ele tinha mesmo que ser um replicante para poder caçar outros, já que os replicantes são mais ágeis, inteligentes e fortes que os humanos. A versão do diretor deixa clara a questão. Outros personagens marcantes são a sensual replicante Pris, feita pela Daryl Hannah e a replicante Rachael (profundamente humana, por quem o caçador de andróides se apaixona), feita pela Sean Young.

Do jeito que o mundo anda hoje, não parece ser improvável que as coisas tomem esse rumo. Muito preocupante.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Adoráveis Mulheres


Antes desta, houve mais três versões para o cinema do livro Little Women de Louisa May Alcott. O título original diz mais sobre a essência da história, que alias tem um tom bem Jane Austen. O filme é lindo e tem um elenco de primeira. Winona Ryder foi indicada ao Oscar.

A Odisséia dos Coen

Só mesmo os irmãos Coen para recontar o périplo de Odisseu de forma tão inusitada. O resultado é maravilhoso. Eles tiveram a cara de pau de responder aos jornalistas, durante o festival de Cannes, onde o filme foi apresentado, que a obra não é baseada na Odisséia de Homero e que nem sequer conheciam tal obra. Isso na época deu enorme insegurança aos críticos de fazerem suas resenhas sobre o filme. Trata-se de um Road movie rural, passado em 1930, embalado por ótima trilha sonora. Mostra a fuga de três detentos sempre atados um ao outro por correntes, e sua cruzada em busca por um tesouro enterrado. Durante o percurso vão ocorrendo impagáveis situações, como o encontro com um “bluezeiro” que vendeu a alma em troca do dom de tocar violão; um gângster, que é o próprio Babyface Nelson; um caixeiro viajante; e lindas lavadeiras, donas de um hipnótico canto (é óbvia a referência as sirenas e cada vez que vemos o filme vamos descobrindo outras referências). No final do filme, aparece ainda uma referencia à Odisséia que não se pode negar, a figura do simpático cego, que obviamente evoca Tirésias. Tudo isso regado ao habitual humor dos Coen. A fotografia também dá um show.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sombras de Goya

Um filme bem cuidado visualmente, mas irregular no roteiro. O filme mostra Goya como mero espectador das sucessivas danças dos poderes da Espanha do seu tempo; acontecimentos que não escaparam de suas críticas, registradas, principalmente, em suas gravuras, na série Caprichos e Os Desastres da Guerra. No filme, Goya apenas recebe as impressões de seu tempo e as registra, quando na verdade ele tomou suas posições políticas. Goya é mostrado sem vida pessoal, sem família, e sua suas enfermidades e fases posteriores são deixadas de lado. Talvez o Milos Forman tenha feito um filme para iniciados tanto na obra de Goya quanto na história espanhola. Mas o público incipiente sai bastante confuso. O mérito do filme foi conseguir uma atmosfera que lembra muito os trabalhos de Goya e certamente o roteiro desenvolveu-se a partir de obras do artista. Javier Bardem mostra completa desenvoltura atuando em inglês; é um homem que não nasceu para outra coisa que não fosse atuar.

O Cara


Passei um tempão ignorando este filme dos Coen, não sei se por causa do título ou do trailer que não me chamavam atenção. Quando vi a primeira vez, logo me arrependi de não ter visto antes; hoje é um dos meus preferidos dirigidos pelos Coen. Os Coen são especialistas em criar personagens interessantes e fazem sempre uma prévia descrição deles no inicio dos filmes. Aqui há uma enorme galeria de personagens no mínimo incomuns, ou então caricaturas do comum. Mas nenhum personagem é tão rico e divertido como Jeffrey Lebowski, ou como ele mesmo se intitula “o Cara”. O narrador diz que é possivelmente o cara mais preguiçoso de Los Angeles; eu acho que vai muito além. Nunca vi personagem tão desleixado; o cabeludo vai ao super mercado de calção, chinelo, roupão e óculos escuros, e paga uma caixa de leite com um cheque. O texto dos atores é delicioso e o roteiro cheio de divertidas confusões. O Cara é confundido com outro Lebowski (o Grande), um milionário casado com uma mulher que deve dinheiro a um mafioso. Dois capangas invadem a casa do Cara e exigem que ele pague a quantia. Um dos capangas faz algo terrível: mija no tapete. Quando se dão conta de que pegaram o cara errado, vão embora, mas o estrago está feito, mijaram no tapete. O Cara vai à procura do outro Lebowski, para que este pague seu tapete. Daí por diante é só confusão. Nas loucas confusões em que se mete, o Cara tem sempre o apoio de seus amigos, Walter, um veterano de guerra do Vietnam que vê conspiração em tudo (vigorosa atuação de John Goodman), e Donny, um sujeito perdido e abobalhado e mesmo assim o mais normal do filme. O filme flerta com o cinema Noir e faz homenagem ao cinema independente, trazendo no elenco grandes atores que tiveram importância nesse cinema: John Goodman, Steve Buscemi, Julianne Moore, David Huddleston, Philip Seymour Hoffman, Tara Reid, Ben Gazarra, John Turturo e Jon Polito. Jeff Bridges nunca esteve tão bem como um cara largadão, amante do boliche e que vive tendo altas viagens sob o efeito da maconha. John Turturo está bizarro como a lenda do boliche, Jesus Quintana, um cara pedófilo e vestido com roupa de poliéster. Ri muito no final do filme, quando eles vão jogar as cinzas do defunto no mar. O Grande Lebowski é comédia da mais alta qualidade.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Come Back Little Sheba...

Os dramas familiares já renderam grandes filmes e este tem um lugar especial. Come Back Little Sheba, cuja tradução brasileira tira toda sutileza de significado do título, conta a história de uma santa dona de casa e seu marido alcoólatra. Ela perdeu uma criança e tem na cadelinha Sheba um pequeno consolo dessa perda. Há uma aparente instabilidade regendo a vida deste casal até que recebem como hóspede uma linda jovem, quebrando de vez a instável taça e o que se derrama são as frustrações de ambos. Falar mais que isso seria contar todo o filme. O drama do alcoolismo já foi assunto de filmes importantes como Farrapo Humano de 1945 e aqui rende um filme tocante, onde nos comovemos o tempo todo com Lola, sofrendo com por este marido em contínua recuperação. Burt Lancaster está bem no papel de Doc, mas é Shirley Booth que brilha com “o fogo de mil sóis” (citando Shakespeare). A sua interpretação, vencedora do Oscar, é um deleite, onde comove com pouco, apenas um olhar piedoso e carinhoso para o seu querido Doc; poucos atores são capazes desse feito, evocar com o olhar toda uma vivência do personagem. Um dos meus filmes preferidos.

Woman Under The Influence



O ator nova-iorquino, John Cassavetes, dirigiu alguns filmes, sendo o mais elogiado a produção independente Uma Mulher sob Influência, belo título e perfeita síntese da dona de casa Mabel, interpretada por Gena Rowlands, esposa do Cassavetes. A história do filme, escrita pelo próprio Cassavetes originalmete para o teatro, é um estudo, uma investigação sobre o amor e suas terríveis consequências quando os amantes sentem sua chama apagar devido à falta de comunicação. Na verdade não se apagou, apenas espera um sopro que não está sendo dado. A direção é informal, deixando a ação fluir tão naturalmente que encomoda; e houve espaço para improvisos. Muito no filme é dito nas entrelinhas, como a tal influência do título, exigindo um olhar acurado de nossa parte. O elenco está formidável, sendo que a impressionante atuação de Gena, indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro por este papel, já é lendária no cinema. Uma tormenta de tensões e emoções numa memorável atuação. O filme é obrigatório.

Desprendimento

Desprendimento, está é a palavra que eu estava procurando. Alguns atores às vezes nos brindam com maravilhosas atuações exatamente por conseguirem um nível altíssimo de desprendimento e mergulhar sem reserva alguma em seus personagens. Isso, por exemplo, aconteceu com Ruth Gordon em Ensina-me a Viver, com Brenda Blethyn em Segredos e Mentiras, com Ellen Burstyn em Réquiem para um Sonho e, para citar um ator, com Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado. E acontece aqui com Geraldine Page. Não dá para acreditar que a simpática velhinha não seja real, de tão convincente; não é à toa que a atriz ganhou o Oscar por este papel. O filme é um Road Movie bem singular, que conta a história de uma velhinha que sente uma atração irresistível por seu passado. Não querendo mais viver na companhia de seu filho frustrado e de sua nora azeda, ela não espera mais uma permissão que sabe que lhe será negada e parte sozinha, de ônibus em busca de seu sonho. A viagem é repleta de surpresas emocionantes. Um filme maravilhoso, filmado com graça e simplicidade. Há um sentimento muito verdadeiro envolvendo esta película. O filme também conta com Rebeca DeMonay, fazendo um bom trabalho. Amantes do cinema, não percam O Regresso para Bountiful.

domingo, 30 de agosto de 2009

Stay Happy


O inglês Mike Leigh é um dos cineastas mais brilhantes da atualidade. Sempre acerta em seus filmes, alguns são obras-primas, como Naked e Segredos e Mentiras. Outros destaques importantes são Topsy-Turvy – O Espetáculo e O Segredo de Vera Drake. Desta vez quero falar do seu mais recente filme, Simplesmente Feliz (Happy Go-Lucky, 2008). Simplesmente Feliz é um filme especial, diferente, curioso e ótimo além de tudo. O roteiro original indicado ao Oscar, roteiro do próprio Mike Leigh, nos apresenta Pauline, a Poppy; uma mulher que decidiu adotar uma filosofia de vida: ser feliz. Malgrado seu o mundo em que ela vive anda meio desacreditado de que uma coisa como a felicidade ainda exista. Toda tentativa de Poppy de ser legal com os outros soa para eles como algum tipo de amolação. O início do filme já deixa clara a atitude da personagem diante da vida, quando em uma livraria ela insiste em ser simpática com um alheio livreiro assistente com humor de bibliotecário e, principalmente, quando diante de um livro chamado The Road to Reality (A Rua para a Realidade) ela diz: “Não quero ir para lá” e dá um risinho. Lembra um pouco Blanche DuBois no filme Uma Rua Chamada Pecado, quando ela diz “Não quero realidade. Quero magia”. Mas, ao contrário de Blanche, Poppy não tem traumas nem lhe falta um pouco de sanidade. Poppy, apesar de desengonçada e do figurino de gosto duvidoso, é lúcida e inteligente e percebe que sua atitude é encarada com estranheza, mas não desiste de ser como é, não porque ache que vá mudar o mundo mas porque ela gosta de ser simplesmente feliz, apesar dos outros. Essa felicidade toda torna-se, na maior parte do tempo, algo irritante para alguns personagens do filme e para muitos espectadores que não entenderam a mensagem do filme. Poppy passa quase todo o filme rindo e fazendo piadas com tudo. Até quando a coisa aperta ela ri, só que nervosamente. Mérito de Leigh e da excelente atriz Sally Hawkins. A atriz ganhou o Globo de Ouro por este papel. Há momentos cômicos, como a patética cena da professora de flamenco; e há momentos em que a felicidade inabalável de Poppy é posta em prova. São nesses momentos que vemos que Poppy não tem nada de boba e tem uma perfeita noção da dureza da realidade: o menino que bate nos coleguinhas; a visita à irmã mais velha; a estranha cena com um mendigo, e principalmente sua briga com Scott, o instrutor da auto-escola. O instrutor é feito pelo ótimo Eddie Marsan, e é o oposto de Poppy no filme. Ao contrario dela ele é mal-humorado e sempre vê o lado negativo da vida. Esses opostos se completam, mas não vencem um ao outro, o que faz a sensata Poppy se afastar e seguir sua vida. Ela termina o filme como começou, feliz e dizendo para todos um desconfortante “continue feliz”.
PS: Nos laboratórios de informática do Centro de Artes e Comunicação onde estudo, há um monitor, o querido Leonardo, que quando as pessoas acabam seus horários e vão embora, ele se despede dizendo “seja feliz”. E as pessoas o olham desconfiadas achando sempre que ele está zombando delas. Um dia ele confessou que fica triste com essa atitude, quando o que ele deseja é totalmente sincero. Parece que no mundo cético de hoje a felicidade se tornou uma utopia. Isso é pior do que a indagação de Macabéia no livro de Clarisse Lispector, A Hora da Estrela. Quando ela pergunta “Ser feliz serve de que?” ela faz uma indagação sobre algo cuja significação lhe escapa. Enquanto nós sabemos o que significa ser feliz. Só que achamos que isso é coisa dificílima de conseguir, quando difícil mesmo é enxergar que muitas vezes já o somos sem perceber. Então talvez não saibamos de fato o que é ser feliz. Que forma triste de ignorância. Leiam abaixo o soneto narrativo de Guilherme de Almeida:
Felicidade

Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada!"
E eu respondi: "Bom dia, folha morta!"

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então, chamou-me e disse: "Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!"

E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!