quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lembranças de Hollywood

Ótima comédia dramática; um retrato cáustico de uma Hollywood que não conhecemos. Um grande elenco, onde Shirley MacLaine e Meryl Streep brilham absolutas. Carly Simon assina as músicas do filme; ela já tinha trabalhado com Nichols em A Difícil Arte de Amar. O filme é baseado no livro autobiográfico da atriz Carrie Fischer. Ela tinha um relacionamento conturbado com a mãe também atriz, Debbie Reynolds. Outro acerto do Mike Nichols, sempre crítico, sempre penetrante.

A Morte Lhe Cai Bem

Louca comédia de Robert Zemeckis, um diretor que trabalha muito bem com efeitos especiais (ganhou o Oscar). Muito bom ver Goldie Hawn e Meryl Streep juntas. O elenco conta ainda com a bela Isabella Rossellini.

Ela não teve escolha.

A escolha de Sofia, baseado na novela de mesmo título de William Styron, foi o filme que consagrou Meryl Streep; com uma irretocável atuação, ela ganhou o Oscar e todos os outros prêmios disponíveis, como uma mãe que tem que fazer uma terrível escolha. O trabalho de Meryl Streep já se mostra genial neste filme, a grande emoção do dilema, que ela faria diferente em As Pontes de Madson; o capricho no sotaque, que ela faria em outra língua em A Casa dos Espíritos. E a vivência; quando um ator consegue nos passar a vivência do personagem (vida anterior), ele atingiu a perfeição do seu trabalho. A sua Sofia é linda, muito frágil, muito carente, sorri e dança. Mas sempre percebemos sob esse arcabouço, um grande peso. Cada olhar de Sofia denuncia sutilmente esse segredo. E ela apenas segue vivendo do momento, como que sem propósitos. Tem por companheiros seu amante Nathan e o amigo dos dois, o jovem escritor Stingo. Os três são amantes de literatura e citam autores americanos importantes, durante o filme. Há uma cena muito bem feita e interpretada pela Meryl, que me causou certo desgosto: Sofia, incipiente com a língua inglesa, se encanta pela poesia de Emily Dickinson (maior poetisa norte-americana; corram para conhecê-la). Ela vai à biblioteca e pergunta ao bibliotecário onde fica o catálogo dos grandes poetas americanos de século XIX, pois gostaria de encontrar Dickens “Emily Dickens”. O bibliotecário azedo, lhe aponta o caminho, mas lhe diz que ela não encontrará nenhum Dickens lá, pois Dickens é inglês (Charles Dickens). Ele sabe muito bem o que Sofia procura, mas em vez de lhe orientar, prefere ser ignóbil e desdenhá-la. Este fato lamentavelmente acontece de verdade nas bibliotecas e eu fico desgostoso porque sou um bibliotecário. Algo parecido acontece no filme Simplesmente Feliz, com um livreiro azedo. As cenas de Auschwitz devem ter servido de fonte, onde muitos filmes de hoje sobre o holocausto beberam. O filme tem uma ótima trilha sonora, tem um momento em que Nathan, meio ensandecido, rege o finalzinho da nona sinfonia de Beethoven. A fotografia é um primor, que favorece o clima de intimismo que ronda os três personagens. Belo filme; bela direção do Alan J. Pakula. No fim do filme, Stingo, vendo os dois amigos inanimados na cama, lê o seguinte trecho de Emily Dickinson:

Façam ampla esta cama.
Façam esta cama com temor;
Nela esperem até o dia do Juízo Final
Excelente e claro.
Seja direito o colchão,
Seja redondo o travesseiro;
Não deixem o alarido que causa o amarelado nascer do sol
Perturbar este solo. (Tradução minha)

A cena mostra a folha de rosto do livro. É uma preciosidade nos dias atuais. Uma edição dos SELECTED POEMS of EMILY DICKINSON. Com introdução de Conrad Aiken. Editado por THE MODERN LIBRARY, New York.

Eu já cataloguei uma edição igualzinha até na encadernação. Fiquei emocionado.

Coming Around Again





A Difícil Arte de Amar é um bom drama com bons desempenhos destes dois grandes mestres da atuação. O Mike Nichols sabem muito bem conduzir uma história, mostrando que amar é uma arte difícil. É mostrada uma aparente banalidade e quietude do casal, mas segurada com muito esforço pelos dois. Como diz o provérbio: "Águas calmas são profundas". A trilha sonora conta com o maior sucesso da Carly Simon "Coming Around Again", música que traduz muito bem o filme ao afirmar que essa coisa da família pacata, cada um com seus triviais papéis a representar, só fica bem no papel.

Escolher entre a felicidade ou o sacrifío parece fácil...


Um amor que nasce da mútua admiração em quatro dias, os dias mais importantes da vida de duas pessoas, dois estranhos que se conheceram sempre. A encruzilhada da vida muitas vezes traz uma alma gêmea que não deveria ser assim denominada. Qual o destino das almas gêmeas a não ser a eterna separação? Mas há um momento na vida em que as almas gêmeas se encontram sozinhas, na surdina do mundo, e se amam o tempo suficiente para fazer brotar a dor que as acompanhará para o resto da vida. Antes era dor indefinida; agora é dor companheira, único elo da saudade constante. As Pontes de Madison é uma pequena obra-prima que me marcou muito. Uma ponte me ligou à personagem Francesca. Ela, no final o filme, tem que tomar a mais difícil decisão de sua vida, assim de repente. Na época, eu também tinha uma decisão a tomar. Clint Eastwood dirigiu a cena arrastada o suficiente para moer a emoção do espectador. E Meryl Streep, nossa, atinge o ápice de sua arte nessa mesma cena. As Pontes de Madison é uma adaptação do Best Sellers de Robert James Waller. Este romance, baseado numa história real, também foi adaptado para o teatro. Filme maravilhoso. Perfeito.

O Menino do Pijama Listrado

Um bom filme que consegue emocionar. O final não chega a ser uma grande surpresa, apesar de causar compaixão. Uma cena que mexeu comigo: o menino alemão pergunta pro outro, que está no campo de concentração, "mas o que foi que você fez pra está aí?" e a resposta "Eu sou judeu". Tanto a pergunta como a resposta foram ditas como tamanha ingenuidade que me emocionou. Imagino que no livro, isso deve ser imensamente mais bonito e comovente. Quero ler.

Bem-vindo à Casa de Bonecas

Todd Solondz produziu, escreveu e dirigiu este filme e foi perfeito em tudo. É um estudo perfeito do bullying, da família, da personalidade, do isolamento social, e por aí vai... Em vez de fazer um super drama, ele fez uma comédia dramática, dirigida de forma tão banal quanto cruel. A personagem central da história, a Dawn (amo demais essa menina), feita pela Heather Matarazzo, sofre todo tipo de humilhação (na escola) e injustiça (em casa), mas não é nunca uma coitadinha; é uma adorável rebelde, uma incompreendida, uma esquecida, sei lá, é maravilhosa.

Um Real Banquete




Poucas vezes vi uma reconstituição de época tão luxuosa e requintada. Não podia ser diferente, já que o filme mostra todos os bastidores dos preparativos para um real banquete servido ao extravagante Luís XIV, no Château de Chantilly, pelo Príncipe de Condé. Tudo é muito “real”: o real príncipe, o real banquete, os reais fogos de artifício. Vatel (que de fato existiu), feito brilhantemente por Gérad Depardieu, é um cozinheiro que ganhou fama e respeito em toda França graças ao seu talento artístico, já que sua culinária rendia verdadeiras obras de arte. Vatel é perfeccionista e orgulhoso de sua arte (ele não apenas organiza os banquetes, mas todos os prazeres e entretenimentos estão ao seu cargo; o filme é muito feliz, mostrando ele como grandioso administrador de todo um exercito de criados), mas começa a desgostar-se dela ou do uso dela, ao descortinar o lado vil e corrupto (no sentindo verdadeiro da palavra) da nobreza a que serve. Vatel ama Anne de Montausier, preferida do rei (no sentido dado naquele tempo), mulher dividida entre a humilde verdade do amor e a opulente mentira da corte. Mas naquela época, uma mulher sozinha no mundo tinha que batalhar por sua sobrevivência. Anne é feita pela ótima Uma Thurman, já versada em filmes de época, todos devem lembrar-se dela no extraordinário Ligações Perigosas. O rei é feito por Julian Sands, que já trabalhou com Roland Joffé em Os Gritos do Silêncio. O pervertido irmão do rei é feito pelo talentoso Tim Roth. A trama bem urdida nos mostra as mais diferentes nuanças da vida cortesã. O roteiro recebeu prêmios e elogios pelo mundo e a direção do Joffé é caprichosa e detalhista ao extremo. O elenco brilha de maneira especial, todos os personagens mostram-se em mais de uma faceta. Mérito de Joffé, que teve a idéia de escrever para os atores, para ajudá-los na construção dos personagens, trechos de diários secretos imaginários de cada personagem, mas baseados na história real. Os figurinos e a direção de arte deslumbram todo o tempo. Ouve consultoria de especialistas em várias áreas para recriação de figurinos, maquiagem, comida (lembro ainda das frutas carameladas penduradas) e mesmo do clima daquele tempo. O filme é um grande deleite para os olhos e vai agradar aos amantes de História.

Kissed

Saudosos tempos aqueles em que havia sessão de arte no cinema São Luis aqui de Recife. Sempre solitário, vi muitos filmes interessantes. Lembrança especial tenho de um filme especial: Kissed – Cerimônia de Amor (Canadá, 1997). Este filme independente e pouco conhecido, causou polêmica nos festivais que participou por tratar da necrofilia. Foi um ano de produções com temas pesados no Canadá; houve Crash – Estranhos Prazeres, do David Cronenberg, e O Doce Amanhã, do Atom Egoyan. Kissed é a história de Sandra Larson, uma jovem que desde cedo apresenta forte inclinação por cadáveres; há uma cena de impacto dela em um ritual com um esquilo esmagado. Mas tarde essa irresistível inclinação leva-a a trabalhar numa casa funerária, onde desenvolverá romanticamente seus enlaces com cadáveres de homens jovens e bonitos. Há um envolvimento com um rapaz “vivo” como uma tentativa de normalização (lembro aqui que a necrofilia está dentro de uma parafilia). Kissed é o primeiro longa dirigido Lynne Stopkewich; por tratar de tema tão incomum e nebuloso, foi feito com dinheiro do próprio bolo da diretora. Em entrevista da época do lançamento, lembro-me de ter lido a diretora afirmar que no conto original a Sandra, uma freak, era muito mais fria e a história continha muito mais sangue, e que ela, diretora, decidiu abrandar o filme até onde deu, para que não ficasse insuportável. Lynne conta, também, que não procura explicar Sandra como o conto faz através da família; no filme, Sandra é o que é e ponto final. Apesar da morbidez do tema, o filme é surpreendentemente bonito e muito poético. Há uma feérica luz no ar quando Sandra beija docemente seus silentes amantes. A história é baseada no conto de Barbara Gowdy chamado We So Seldom Look on Love “Raramente Nós Abordamos o Amor” (obs.: traduzi livremente). Também tem um pouco do “Poema à Necrofilia” de Frank O’Hara, e um pouco de um artigo de um jornal da Califórnia, que chocou, com a notícia de uma jovem que seqüestrou um carro funerário com um jovem defunto em seu caixão e o levou para um motel; lá fez sexo com o cadáver por dias até ser descoberta e presa. Gostaria de ter lido o artigo, o poema e, principalmente, o conto.

A Vida Sonhada dos Anjos


O belo título engana; este é um filme muito sério e difícil, uma história que só é bonita se sonhada mesmo. O filme mostra os perigos de se deixar levar por ilusões quando se trata de relacionamentos; a direção é realista, o que causa identificação entre a platéia e as duas amigas, pois podemos nos sentir bem próximos delas em alguns momentos.

As duas atrizes venceram empatadas o prêmio de melhor atriz em Cannes.