domingo, 10 de outubro de 2010

Tudo sobre Eve







Bette Davis é famosa, sobretudo, por suas grandes vilãs e esse filme contribuiu para aumentar essa fama entre o público brasileiro desavisado, por causa do título do filme, A Malvada (1950); já que ela é a estrela do filme, pensavam que a malvada da história seria ela. O título “A Malvada” já está gravado em nossas mentes e nem nos ressentimos dele; mas vamos concordar que o título original All About Eve “Tudo Sobre Eve” é maravilhoso. O título sugere um dossiê e é isso que veremos na tela. O filme começa mostrando a elite do teatro reunida em Nova York, para uma importante cerimônia de premiação do teatro. Estão presentes Margo Channing, uma importante atriz da área e Eve Harrington, a triz mais jovem que ganhará o prêmio. Karen, amiga de Margo, e esposa do dramaturgo Lloyd Richards, é que relembra, através de flashbacks, tudo sobre Eve; a sua escalada rumo ao estrelato através da aproximação de Margo, como uma fervorosa fã. Eve não faltava a nenhuma apresentação de Margo. Uma noite, depois de mais uma apresentação, Karen pede a Margo que conheça uma grande fã sua. Eve, um poço de bondade e devoção, conquista Margo e vira sua secretaria particular. Nem todos caíram na conversa de Eve, pois Birdie, a acídula camareira de Margo, percebe algo de errado na moça e tenta alertar a patroa. Sempre tramando, Eve consegue, através de Karen, virar substituta de Margo no teatro e, um dia, quando Margo perde o trem, Eve se apresenta em seu lugar. Os jornais noticiaram a grande estréia de Eve nos palcos e esta dá entrevista criticando atrizes mais velhas que insistem em atuar em papéis que não estão de acordo com sua idade. Margo, cuja simpatia por Eve já vinha a algum tempo se tornando em hostilidade, fica mais irritada do que nunca. A cena da festa, em que Margo está soltando faíscas e ironias por tudo que é lado é talvez a mais famosa do filme. Suas falas, a maioria em relação à idade de Eve, são deliciosas. É nessa festa que aparece, em uma de suas primeiras aparições na tela, fazendo numa ponta, a figura de Marilyn Monroe, que se tornaria o maior ícone sexual do cinema. A inescrupulosa Eve continua em frente com seus planos, agora querendo tomar Lloyd, o marido de Karen, para que escreva peças onde o papel principal seja dela. O crítico teatral, Addison DeWitt, querendo Eve para si, investiga seu passado e descobre que a moça tem muito a esconder. Ele a chantageia e ela tem que ceder, tornando-se vítima do seu próprio veneno. Voltamos à cerimônia de premiação. Ela vence. O clima de amarga vitória é maravilhoso. Margo, magnânima a cumprimenta. Quando volta ao seu apartamento, Eve encontra uma bela e jovem adolescente chamada Phoebe, presidente de seu fã-clube... Filmes sobre os bastidores da fama sempre me atraem muito. A Malvada é, com certeza, um dos maiores filmes já feitos. Direção impecável do grande Joseph L. Mankiewicz (responsável também pelo roteiro); o elenco é irrepreensível: Anne Baxter, Gary Merrill, George Sanders, Hugh Marlowe, Celeste Holm e Thelma Ritter; Bette Davis mítica (melhor atriz em Cannes). Indicado a 14 Oscars: filme, direção, atriz (dois, para Bette Davis e Anne Baxter), atriz coadjuvante (2, para Celeste Holm e Thelma Ritter), ator coadjuvante, roteiro adaptado, direção de arte, fotografia, edição, som, trilha sonora e figurino; venceu: filme, direção, ator coadjuvante, roteiro adaptado, som e figurino.

A razão escrava da paixão




O filme, Escravos do Desejo (Of Human Bondage, 1936), também é conhecido pelo título Servidão Humana, que é a tradução mais correta do título original do livro de William Somerset Maugham (não confundir com A Condição Humana, livro de André Malraux). O livro, além dessa adaptação, teve outras duas, uma 1946 e outra em 1964. Um homem bom, Philip Carey (Leslie Howard, ótimo), se submete aos caprichos de uma garçonete amoral. Nessa servidão, ele perde quase tudo na vida, sem nunca ser verdadeiramente retribuído por ela. E quem poderá julgá-lo ou criticá-lo? Quem já não esteve preso nesses laços ilusórios do amor, os mais difíceis de romper? O filme foi moderno para a época ao tratar do tema de maneira muito simples e realista. Apesar de ter feito outros filmes antes, essa é considerada a verdadeira estréia da Bette Davis no cinema. Ela obteve sua primeira das dez indicações ao Oscar. Bette Davis tem um recorde ainda não igualado de ter sido indicada por quatro anos consecutivos. Mas a indicação por Escravos do Desejo não veio fácil. Ela não foi contada na lista de indicadas daquele ano (trama da Warner). Mas como toda a imprensa e o meio cinematográfico acharam um absurdo, seu nome foi inserido no outro ano (coisa semelhante aconteceu com o filme Cidade de Deus). Uma crítica chegou a dizer na época, que aquela fora a melhor interpretação feminina jamais vista no cinema até então. A cena em que depois de desprezada por Philip, Mildred, enfurecida, atira-lhe na cara uma enxurrada de ofensas, é arrepiante. Não deixem de conferir.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Jezebel



Na Nova Orleans de 1852, Julie Marsden, uma jovem e impetuosa aristocrata, escandaliza a sociedade, não seguindo as convenções sociais de seu tempo. Isso afasta seu noivo, que viaja para Filadélfia, retornando depois de uns anos, já casado. Dominada pelo orgulho ofendido, pelo ciúme e pela vingança, ela começa um caminho autodestrutivo, atingindo as pessoas em sua volta e a si mesma. Uma epidemia de febre amarela lhe dá chances de fazer o bem e se redimir. O título do filme (Jezebel, 1938) é perfeito em sua referência bíblica. Ótimo filme de cores sulistas dirigido por William Wyler, com grande atuação de Bette Davis, que lhe valeu o Oscar. Oscar também de atriz coadjuvante para Fay Bainter e indicado para filme, fotografia e trilha sonora.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ninguém dá as costas a uma estrela!







Hollywood é uma selva repleta de animais antropófagos. Animais desleais, famintos e insaciáveis e que, no entanto, são capazes de fazer magia nas telas, onde passam de animais ferozes a deuses belos e majestosos, e igualmente ferozes, insaciáveis. A sagacidade e ousadia de Billy Wilde foram capazes de retratar fielmente essa selva olímpica, este Olimpo fero. Outros filmes também tratam dos bastidores da indústria, como Cantando na Chuva (Singin' in the Rain, 1952) ou A Malvada (All About Eve, 1950), que especificou a selva do teatro, mas nenhum mostra esses bastidores com argúcia tão acídula quanto Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950). Tanto o título original quanto o brasileiro são belos e felizes em significado. A história surpreende já no começo, aonde Gillis, já morto, vai narrando os acontecimentos em flashbacks. Ele foi um roteirista, mais especializado em argumentos, que sem idéias frutíferas e perseguido por credores, acaba indo atrás de Norma Desmond, estrela mor do cinema mudo e que agora vive em ostracismo, olvidada por profissionais da área e fãs. Norma sonha com uma volta em grande estilo, num filme do grande diretor Cecil B. DeMille, e tudo que Gilles tem a fazer é iludir-lhe com essa volta ao estrelato; enquanto isso ele torna-se o gigolô de Norma. Nesse, mais que em qualquer outro dos seus filmes, Wilde mostra-se como um dos diretores mais modernos e ousados do cinema, fazendo um profundo estudo dos grandes mitos de uma indústria ingrata com esses mesmos mitos que a edificaram. Nesse drama com toques noir, Wilde, que também trabalhou no roteiro, joga com verdade e ficção todo o tempo, mesclando sonho e realidade com perícia impressionante. A presença do próprio Cecil B. DeMille, como a escolha de Gloria Swanson para o papel de Norma, são idéias brilhantes e exitosas. Glória Swanson se identifica muito com sua personagem, são dela as memoráveis falas “We didn't need dialogue. We had faces!”, “All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up” (cena chave) e, mais que todas, “I am big. It's the pictures that got small.”; ela mesma foi uma grande estrela do cinema mudo, sofreu com a transição para o cinema falado e acabou esquecida. Gloria fazendo Norma, ou seja, ela mesma, nos apresenta uma construção maravilhosa e tem o primoroso detalhe da interpretação de Norma no glorioso final da película, onde ela desce as escadas já sem noção de realidade, interpretando uma cena do que pensa ser Salomé; o primor de toda a cena está no seguinte: Max von Mayerling (Erich von Stroheim), fiel “mordomo” de Norma, a avisa que as câmeras já estão prontas para a ação, e então ela desce gloriosa carregando muitíssimo nos esgares; na verdade ela vai para a prisão e os flashes são dos fotógrafos de tablóides, mas o fiel Max (que por tanto tempo manteve Norma num limbo, lhe alimentando de mentiras e cartas de fãs que ele mesmo escrevia) percebe o triste estado dela e a mantem no limbo até o fim. Os esgares são exagerados porque a interpretação no cinema mudo tinha quer ser, à guisa da interpretação de teatro, muito exagerada ou expressiva; O próprio Erich von Stroheim foi um grande diretor de filmes mudos, e o filme traz além de Gloria e DeMille, que é mostrado no set real das filmagens do clássico Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1949), outras lendas como Buster Keaton, Anna Q. Nilsson, H.B. Warner, Hedda Hopper, Jay Livingston e Ray Evans. O tom noir vem da tensão dos personagens, do tom corrosivo dos diálogos e da mansão de Norma, digna da senhora Havisham de Grandes Esperanças. Erich von Stroheim está perfeito no filme, assim como William Holden e Nancy Olson. O filme ganhou Globo de Ouro de filme, direção, atriz e trilha sonora, e venceu os Oscars de roteiro original, direção de arte e trilha sonora, sendo ainda indicado para filme, direção, fotografia, ator e atriz coadjuvantes, edição, ator e atriz (este ano teve umas das disputas mais acirradas, pois Bette Davis e Anne Baxter concorreram com A Malvada, onde Davis, a favorita não ganhou; quem venceu foi Judy Holliday com Nascida Ontem – Born Yesterday; a outra concorrente foi Eleonor Parker com À Margem da Vida – Caged!; perco-me em citações, pois são atrizes maravilhosas em filmes idem, que não se fazem mais iguais, o que faz repensar a frase de Norma “Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos”) ; no ano seguinte, seria a vez de Vivien Leigh ganhar o Oscar com Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire,1952), em que, no final, a personagem Blanche DuBois, assim como Norma, abandona a dura realidade para se refugiar na fantasia. Ambição, vaidade, obsessão pela estética, idade, narcisismo entre outros, são temas abordados com maestria nesse tesouro do cinema, representante de uma época de apogeu não mais atingido hoje. O grosso do cinema de hoje nem sequer é crepuscular, visto que esse estado representa ainda uma transição, enquanto que a situação hoje já está definida. Que bom que a nostalgia e o saudosismo ainda podem se consolar no passado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os Outros





Alejandro Amenábar escreveu e dirigiu Os Outros (The Others, 2001) dando ao cinema um dos seus melhores terrores psicológicos e a Nicole Kidman a oportunidade de se firmar de vez como grande atriz (no mesmo ano ela fez Moulin Rouge, com o qual foi indicada ao Oscar num ótimo desempenho, mas inferior a este em que foi indicada apenas ao Globo de Ouro). O filme tem seu primeiro acerto no título. Quando se pensa em outros, pensa-se logo em personagens que não os principias, isso ajudou a proteger o segredo do filme, que realmente causa grande surpresa no final, mesmo para quem já viu o filme Ilusões Perigosas (Haunted, 1995), que já trazia semelhante desfecho. O filme mostra Grace, uma mãe tensa e superprotetora, que espera anelante o retorno de seu marido. Sua filha começa a ver outra família habitando a mansão, estabelecendo o terror. O diretor tem um bom roteiro nas mãos e bilha quando causa calafrios na platéia usando elementos tradicionais do gênero, mas com uma economia e requintes primorosos: a velha mansão, dessa vez ainda mais sombria, devido à fotofobia dos filhos, as portas sempre rigorosamente fechadas, os criados suspeitíssimos e o brilhante uso da neblina em uma cena arrepiante em que o diretor nos confunde e assusta com uma aparição das mãos da própria Grace. O filme assusta com sugestões, não com efeitos e sons no máximo. Além do brilhante desempenho de Nicole, também se destacam Fionnula Flanagan como a governanta e Alakina Mann como a solerte filha de Grace. Grande filme. 

domingo, 22 de agosto de 2010

Grandes Esperanças




Sempre achei lindíssimo este título Grandes Esperanças (Great Expectations, 1946), apesar de inadequado, pois o sentido correto é dado pela palavra Expectativa, não só por uma questão de tradução, mas porque é o que Pip recebe de novo (esperança todos tem sempre, ao menos os não simples de coração, que percebem o sabor amargo que a vida sempre deixa na boca, por mais doce que seja a guloseima). São as expectativas que Pip ganha que lhe permitem uma viagem onde adquire maturidade e autoconhecimento, coisas que apesar de importantes, ele e o leitor/expectador sabem que não lhe teriam nunca feito falta, se tivesse continuado sua vida simples, honesta e algo diferente de feliz (ou felicidade não percebida). Houve muitas versões do clássico do Charles Dickens para o cinema, mas nenhuma se compara a essa do grande diretor britânico, David Lean, que já estava experiente no tema do amor dorido, pois antes desse magnífico filme, fez a obra-prima Desencanto (Brief Encounter, 1945). Existem opiniões de que uma boa adaptação tem que se diferenciar da obra original, justamente para que faça sentido à palavra ‘adaptação’ e não seja mera cópia; interessante como essa versão está muito acima das outras em qualidade e seja a mais fiel à obra de Dickens. Impressionam a caracterização das personagens, o clima, e a riqueza de detalhes, mormente na construção da senhora Havisham, tanto na sua desolada psique quanto na atmosfera sombria em que vive; o cenário da apodrecida festa de casamento é impressionante e o claro-escuro ajuda a criar o cenário aterrador em que Pip vai entrando, cenário só menos aterrador que sua moradora (Oscar de fotografia e direção de arte; o filme concorreu aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro adaptado). Grandes Esperanças é uma história de amor, mas o amor mostrado em sua faceta mais terrível, a paixão, pois foi justamente esse sentimento que criou um monstro tal como senhora Havisham, personagem tão fantástico e poderoso que parece pura ficção; falo ‘parece’ porque um contemporâneo de Dickens afirmou que foi um relato seu da realidade que inspirou a Dickens a personagem e diz que ela difere pouco da realidade descrita; afirmou que as tintas usadas pelo autor não foram de modo algum exageradas. Não se pode afirmar que exista alguém que viva ou viveu em tal atmosfera fantasmagórica, mas pode-se com certeza afirmar que quanto à extrema amargura e rancor, é perfeitamente normal que exista um sem número de senhoras Havisham, e isso apoiado pela Psicologia, pois o próprio Freud sempre viu a paixão (Pathos) mais próxima da patologia do que de algo salubre para a psique. Outra mola importante da história é o que dinheiro e o que ele propicia faz com as pessoas, turvando caracteres ou os confirmando. Dickens tratou o interior inglês e Londres com igualdade: ambos feios e gananciosos. E, por fim, vem a gratidão/ingratidão e o arrependimento. Do começo ao fim a sensação sentida é de tragédia, a tragédia da consciência culpada e do tempo perdido, onde não há como se voltar atrás jamais. A lição aprendida vem já tarde, o que nos faz pensar que o mal-estar acompanhará os personagens até a morte. Depois desta só existe descanso, por um tempo...

sábado, 21 de agosto de 2010

Dickens moderno


Esse Grandes Esperanças (Great Expectations, 1998) não é fiel à obra do Dickens, mas não chega a desagradar; como todos, gosto da cena do beijo no bebedouro. O elenco, incluindo a dama, Anne Bancroft, é composto de grandes nomes, embora não brilhe, pois os personagens não tem nem os nomes nem a força dos originais; se perdem. Sabe aquelas adaptações infanto-juvenis dos grandes clássicos? Eis o que vemos aqui, uma versão bonita visualmente (a fotografia é um ponto alto), mas fraca nos demais aspectos. Há uma cena sensual entre Finn e Stella, mas até essa sensualidade é fria, calculada o bastante para errar na conta. Enfim, um filme com um tempo muito ameno, enquanto a obra original, quando não é tempestade é o anúncio desta.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Instinto Básico






Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992) é um suspense psicológico excepcional. Um grande sucesso dirigido brilhantemente por Paul Verhoeven (mais conhecido pelas ótimas ficções O Vingador do Futuro, Robocop e Tropas Estelares). 

Nick (Michael Douglas) faz um policial de pavio curto, ex-usuário de cocaína e que passou por um processo por ter atirado, segundo ele por acidente, em civis. Ele é o prato cheio para os jogos psicológicos de Catherine Tramell, uma mulher de beleza incomparável, milionária, formada em psicologia, viciada em sexo e outras drogas e com um linguajar direto e às vezes chulo. Nick, que já tem um caso a psicóloga da corregedoria, Dra. Elizabeth Garner (Jeanne Tripplehorn), se envolve amorosamente com Catherine, que é suspeita de matar um cantor de rock durante o sexo, com um furador de gelo (uma cena mostra sua habilidade com tal objeto). Catherine, tem livros escritos, Best-sellers policiais, e um deles chama-se “O Amor Dói”, onde há um assassinato idêntico. Então, ou alguém usou esse fator para incriminá-la ou ela escreveu o livro como álibi, podendo dizer que não seria tão idiota de matar alguém da mesma forma como escreveu no livro. Vale lembrar que para cada morte que ronda sua vida, ela te um livro com enredo semelhante escrito, como no caso da morte dos seus pais. Envolvido com duas brilhantes manipuladoras, Nick acha que sua experiência como profissional que sabe muito sobre impulso homicida, o manterá dono da situação, mas acaba se vendo num inferno. O segundo triângulo da historia é formado por ele e Catherine novamente, tendo por terceira ponta, Roxy, a amante titular de Catherine (ela tem outros e outras e os usa como materiais para seus livros; investigou a vida de Nick, pois está escrevendo um livro sobre um policial atirador e diz a Nick “Você dará um ótimo personagem”; lá pelo fim da fita, ele lhe pergunta se ela não pode eliminar o assassinato da história do livro e ela lhe diz que se fizer isso, não vai vender; perguntada por que, responde “Alguém sempre tem que morrer”). Há um assassino a solta e todas as três são suspeitas; isso torna a trama um jogo perverso de gato e ratas ou vice-versa.

Catherine é uma personagem magnífica, segundo a própria Elizabeth “Ela é brilhante”; ela hipnotiza a todos sempre que está em cena. Ela, que herdou a fortuna dos pais mortos em acidente suspeito (sendo ela própria a principal suspeita) está sempre desafiando seus próprios limites psicológicos e brincando com o perigo. Ela, quando interrogada pela polícia, numa sala repleta de homens, faz deles gato e sapato (quando ela acende um cigarro e escuta um “é proibido fumar neste edifício”, responde “vai me prender por fumar?”; depois vem a antológica cruzada de pernas sem calcinha); findado o interrogatório, faz questão de passar pelo polígrafo, só pela satisfação de enganar a máquina. Quanto a Nick, Catherine se diverte testando o limite dele com seus jogos que vão desde testes, ela lhe pergunta se ele tem um cigarro, ele diz que não fuma, ela responde “Fuma sim”; em seguida ela pega um cigarro que traz consigo, acende-o e lhe oferece; ele lhe diz de novo que parou de fumar e pára, percebendo o jogo e ela diz “por pouco tempo” (na seqüência do interrogatório ela voltará a lhe oferecer um cigarro, é demais); ela também vive irritando-o, lhe chamando de ‘atirador’, fato relacionado ao seu processo e que o aborrece muitíssimo por algum motivo; ela sabe que ele lhe viu trocar de roupa e em dado momento lhe diz “Você sabe que não uso nada por baixo, não é Nick?” Sexo, amor e violência são elementos fortes no filme e se confundem; as cenas que envolvem esses três elementos, são sempre fortes e ousadas, num suspense em crescente, com toques a lá Hitchcock, numa homenagem a Vertigo (locações, escada do prédio de Nick, que lembra a escada da torre em Vertigo, penteado de Catherine durante o interrogatório e o próprio jogo com a identidade das personagens, onde não sabemos quem é Catherine, Elizabeth ou Roxy em determinados momentos e em ações não vistas). Isso revela um roteiro inteligente e afiado, que brinca com o ambíguo e o misterioso, e usa elementos psicológicos para iludir o espectador, prendendo a atenção todo o tempo. No final, a ambigüidade domina, e cada um pode tirar suas conclusões sobre quem realmente é a assassina. 

Na época, Camille Paglia apontou um significado fálico no picador de gelo, e o feminismo estava em alta; o linguajar, a postura, a violência do filme eram elementos muito controversos na época, o que fez dele uma sensação e colocou Sharon Stone no topo da fama. Não foi ainda nesse filme que seu talento dramático foi reconhecido, mas ninguém pode deixar de comentar o quanto ela estava poderosa e bela como uma deusa olímpica. O figurino clean e sofisticado da personagem, composto por peças básicas, minimalistas, foi discutido, admirado e imitado mundo afora. Sem dúvida um dos principais filmes da década de 90.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Les Liaisons Dangereuses

De Danilo Alves aos seus leitores

Ficareis sem dúvida satisfeitos, senhores, de conhecer minhas impressões acerca de tão inspirada película. Creio que inspiração é palavra de ordem aqui, já que o filme de Stephen Frears (Ligações Perigosas, 1988) foi inspirado na peça Ligações Perigosas, de Christopher Hampton, ambos baseados em As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos. Devo dizer que o filme foi indicado aos Oscars de melhor atriz para uma magnífica Glenn Close e de atriz coadjuvante para uma tocante Michelle Pfeiffer, apesar de sua personagem não ser coadjuvante; concorreu, também, a trilha sonora e venceu roteiro adaptado, direção de arte de figurino. Stephen Frears e John Malkovich não foram indicados, o que fez a premiação perder parte de seu brilho, como jóia puída a quem uma jovem negligente esqueceu-se de dar polimento. Cumpre-me deixar-vos a par de história tão fascinante. 















Dois nobres entediados com suas vidas monótonas, na França do século XVIII, cansados de seu indolente cotidiano, tem por diversão um jogo cruel e perverso: brincar com os sentimentos inocentes, manipular as ingênuas emoções. A Marquesa de Merteuil pede ao amigo, o Visconde de Valmont, que seduza a filha de uma de suas amigas, Madame de Volanges. Essa filha é Cecile de Volanges, prometida do antigo amante da Marquesa. O prêmio de Valmont é algo que só a Marquesa pode lhe ofertar. Que tarefa tão simplória para um prêmio tão elevado; para isso, Valmont não atinou. Mas eis que Valmont tem intenções nefandas com a respeitável Presidenta Madame de Tourvel, senhora casada, que para suprir a falta do esposo viajante, visita a casa de campo de sua amiga, Madame de Volanges. Esta escreve àquela que se abstenha do contato com Valmont, um homem com falhas graves no caráter. Sabendo disso, Valmont tem mais empenho ainda no seu intento desonesto. Vês, que lhes conto quase tudo. Penso que tereis de conferir o livro ou o filme para se inteirarem do desenrolar dessas execrandas aventuras. Merteuil domina todo o filme com seu cinismo tão grande quanto sua inteligência. Ela mesma diz ao Visconde que veio para dominar o seu sexo e vingar o dela. A cena final do filme é famosíssima e brilhante, fazendo um eco com a cena inicial, ambas utilizando o espelho como objeto revelador da interioridade.



Adaptações para o teatro

Existem outras versões para o cinema, As Relações Perigosas, dirigido por Roger Vadim, em 1959, com Jeanne Moreau; Milos Forman dirigiu Valmont em 1989, com Annette Bening e Colin Firth; em 1999 Roger Kumble fez sua moderna e ousada versão jovem, Segundas Intenções; há ainda Scandal, dirigido por Lee Jê Yong, com a ação transferida apara a Coréia do século XVIII; mas nenhuma dessas versões consegue atingir o esplendor, a beleza, as finura e sutileza de significado que fazem do filme de Stephen Frears uma obra-prima da sétima arte. A câmera de Frears é de uma argúcia sem par; logo no início, Marquesa e Visconde tem sua toalete dividida conosco, observadores, e terminam mirando-se em espelhos que em nossa posição privilegiada, vemos que são eles mesmos, reflexos um do outro. A arma escolhida é o sexo, num jogo onde a arma usada para matar é a mesma que faz intumescer. Jogadores terríveis, é praticamente impossível vencê-los, pois, para isso, seria necessário um caráter correspondente ao deles e isso é raro, até mesmo num ambiente corrompido como era aquele de uma aristocracia à beira da decadência, tendo nos calcanhares a Revolução Francesa. Quem os venceria senão eles mesmos!? O estilo da época era o Rococó, estilo que louvava a beleza exageradamente ornada de tudo menos profundidade. O estilo revela o caráter dos dois jogadores, porcelanas destinadas a quebrar ao primeiro choque.

Choderlos de Laclos



Ilustrações do livro


Uma peça decorada ao rococó


Nú no Sofá, de Boucher

A bela pintura de Reynolds
Reynolds

Mr. and Mrs. Andrews, de Gainsborough

O Balanço, de Fragonard, pintura símbolo do Rococó

Dizei-me, se o sabeis, se há adaptação mais requintada, melhor inspirada do que essa, que transpôs à página gigante que é a tela, toda beleza presunçosa, todos os prazeres pretensiosos, toda uma alegria presumida, enfim, a vida fátua de uma aristocracia cuja nobreza traz um brilho embaciado, contidos nas pequenas páginas do livro. A leitura do livro faz acorrer para a tela e assistir ao filme faz acudir às pressas ao livro. Um e outro nos deleitam com sua peculiaridade. No filme, vemos a primorosa reconstituição de época, figurinos deslumbrantes, cenários e decorações ricos daquele estilo galante e donairoso que foi o Rococó. Tudo embalado por bela música. O livro nos prende com o encanto de uma prosa tão graciosa quanto cortante, como uma espada ornada de rica pedraria e cujo gume nunca embotará. Eis uns pequenos excetos:

Da Presidenta de Tourvel ao Visconde de Valmont

“...esse sentimento é penoso quando quem o inspira não o compartilha”

“Isso a que chamais felicidade não passa de um tumulto dos sentidos, uma tempestade de paixões, cujo espetáculo atemoriza, mesmo quando contemplado da praia. Ah! Como enfrentar essas tempestades? Como ousar embarcar num oceano coberto de destroços de mil naufrágios? E com quem? Não, senhor, eu fico em terra: adoro os laços que a ela me prendem. Não desejaria rompê-los, ainda que o pudesse, e, se não os tivesse, apressar-me-ia em criá-los”.

Da Presidenta de Tourvel à Sra. De Rosemonde:

“Os sofrimentos do corpo, como os do espírito, fazem-nos desejar a solidão, e muitas vezes censuramos o mau humor daqueles de quem deveríamos tão-somente lastimar os males”

Da Sra. De Rosemonde à Presidenta de Tourvel:

"Oh minha jovem amiga, digo-vos, com tristeza, que sois por demais digna de ser amada para que algum dia o amor vos faça feliz*... O homem goza a felicidade que sente, e a mulher, a que dá”.

*Aqueles que são mais dignos de amor, nunca são feitos feliz por ele.

Com efeito, estou resolvido a admitir sempre que este é um dos filmes da minha vida.

                                                                 Recife, neste 29 de junho de 20**.